Portuguese poem
Immensis Orbitus Anguis
by Castro Alves
Resvala em fogo o sol dos montes sobre a espalda, E lustra o dorso nu da índia americana... Na selva zumbe entanto o inseto de esmeralda,
E pousa o colibri nas flores da liana. Ali — a luz cruel, a calmaria intensa! Aqui — a sombra, a paz, os ventos, a cascata... E a pluma dos bambus a tremular imensa... E o canto de aves mil... e a solidão... e a mata...
E à hora em que, fugindo aos raios da esplanada, A Indígena, a gentil matrona do deserto Amarra aos palmeirais a rede mosqueada, Que, leve como um berço, embala o vento incerto...
Então ela abandona-lhe ao beijo apaixonado A perna a n ais formosa-o corpo o mais macio, E, as pálpebras cerrando, ao filho bronzeado
Entrega um seio nu, moreno, luzidio. Porém, dentre os espatos esguios do coqueiro, Do verde gravata nos cachos reluzentes, Enrosca-se e desliza um corpo sorrateiro E desce devagar pelos cipós pendentes. E desce... e desce mais... à rede já se chega...
Da índia nos cabelos a longa cauda some... Horror! aquele horror ao peito eis que se apega! A baba — quer o leite! — A chaga — sente fome! O veneno-quer mel! A escama quer a pele! Quer o almíscar-perfume!-O imundo quer-o belo! A língua do reptil-lambendo o seio imbele!...
Uma cobra-por filho... Horrível pesadelo!...
Assim, minh'alma, assim um dia adormeceste Na floresta ideal da ardente mocidade... Abria a fantasia— a pétala celeste... Zumbia o sonho d'ouro em doce obscuridade...
Assim, minh'alma deste o seio (ó dor imensa!) Onde a paixão corria indômita e fremente! Assim bebeu-te a vida, a mocidade e a crença, Não boca de mulher... mas de fatal serpente!...