Versos Portuguese Castro Alves Horas de saudade

Portuguese poem

Horas de saudade

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Tudo vem me lembrar que tu fugiste, Tudo que me rodeia de ti falla, Inda a almofada, era que pousaste a fronte, O teu perfume predilecto exhala.

No piano saudoso, á tua espera, Dormem somno de morte as harmonias. E a walsa entreaberta mostra a phrase, A doce phrase qu′inda ha pouco lias.

As horas passam longas, somnolentas... Desce a tarde no carro vaporoso... D′Ave-Maria o sino, que soluça, É por ti que soluça mais queixoso.

E não vens te sentar perto, bem perto, Nem derramas, ao vento da tardinha.

A caçoula de notas rutilantes Que tua alma entornava sobre a minha.

E quando uma tristeza irresistivel Mais fundo cava-me um abysmo n′alma. Como a harpa de David, teu riso santo Meu acerbo soíTrer já não acalma

É que tudo me lembra que fugiste. Tudo que me rodeia de ti falla. Como o crvstal da essencia do Oriente, Mesmo vasio, a sandalo trescala...

No ramo curvo o ninho abandonado Relembra o pipilar do passarinho. Foi-se a festa de amores e de afagos.. Eras — ave do céo... minha alma — o ninho!

Por onde trilhas — um perfume expande-se. Ha rythmo e cadencia no teu passo! És como a estrella que transpondo as sombras, Deixa um rasto de luz no azul do espaço...

E teu rasto de amor guarda minh′alma, Estrella que fugiste aos meus anhelos, Que levaste-me a vida entrelaçada Na sombra sideral de teus cabellos!...

2 de Abril de 1870.