Versos Portuguese Castro Alves O Vôo do Gênio

Portuguese poem

O Vôo do Gênio

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A′ ACTRIZ EUGENIA CAMARA

Quem és tu? Quem és tu? — « Eu sou o genio. Disse-me o anjo; vem seguir-me o passo, Quero comtigo me arrojar no espaço, Onde tenho por c′roas o arrebol.»

— Onde me levas, pois?... — «Longe te levo Ao paiz do ideal, terra das flores, Onde a briza do céo tem mais amores E a fantasia — lagos mais azues...» E fui... e fui... ergui-me no infinito, Lá onde o vôo d′aguia não se eleva... Abaixo — via a terra — abysmo em tréva! Acima — o firmamento — abysmo em luz!

— Archanjo! archanjo! que ridente sonho! — «Não, poeta, é o vedado paraizo, Onde os lyrios mimosos do sorriso Eu abro em todo o seio que chorou, Onde a loura comedia canta alegre, Onde eu tenho o condão de um genio infindo, Que a sombra de Molière vem sorrindo Beijar na fronte, que o Senhor beijou...»

— Onde me levas mais, anjo divino? — «Vem ouvir, sobre as harpas inspiradas O canto das espheras namoradas, Quando eu encho de amor o azul do céo. Quero levar-te das paixões nos mares, Quero levar-te a dedalos profundos,

Onde refervem sóes... e céos... e mundos... Mais sóes... mais mundos, e onde tudo é meu...»

— Mulher! mulher! Aqui tudo é volupia: A briza morna, a sombra do arvoredo, A lympha clara, que murmura a medo, A luz que abraça a flor e o céo ao mar. Ó princeza, a razão já se me perde, És a sereia da encantada Scylla, Anjo, que transformaste-te em Dahia, Samsão de novo te quizera amar!

Porém não páras neste vôo errante! A que outros mundos elevar-me tentas? Já não sinto o soprar de auras sedentas, Nem bebo a taça de um fogoso amor. Sinto que rolo em barathros profundos... Já não tens azas, aguia da Thessalia, Maldição sobre ti!... Tu és Omphalia, Ninguem te ergue das trévas e do horror.

Porém silencio! No maldicto abysmo, Onde cahi comtigo, criminosa, Canta uma voz, sentida e maviosa, Que arrependida sobe a Jehovah! Perdão, perdão, Senhor! p′ra quem soluça, Talvez seja algum anjo peregrino... Mas não! inda eras tu, genio divino, Também sabes chorar, como Eloah!

Não mais, ó seraphim! suspende as azas! Que atravez das estrellas arrastado Meu ser arqueja louco, deslumbrado, Sobre as constellações e os céos azues. Archanjo! Archanjo! basta... Já comtigo Mergulhei das paixões nas vagas cerulas... Mas nos meus dedos — já não cabem — perolas — Mas na minh′alma — já não cabe — luz!...