Versos Portuguese Castro Alves Os Perfumes

Portuguese poem

Os Perfumes

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O perfume o invólucro invisível, Que encerra as formas da mulher bonita. Bem como a salamandra em chamas vive, Entre perfumes a sultana habita

Escrínio aveludado onde se guarda — Colar de pedras — a beleza esquiva, Espécie de crisálida, onde mora A borboleta dos salões — a Diva. Alma das flores— quando as flores morrem, Os perfumes emigram para as belas,

Trocam lábios de virgens-por boninas, Trocam lírios — por seios de donzelas! E ali — silfos travessos, traiçoeiros Voam cantando em lânguido compasso Ocultos nesses cálices macios Das covinhas de um rosto ou dum regaço

Vós, que não entendeis a lenda oculta, A linguagem mimosa dos aromas, De Madalena a urna olhais apenas Como um primor de orientais redomas; E não vedes que ali na mirra e nardo Vai toda a crença da Judia loura...

E que o óleo, que lava os pés do Crista, É uma reza também da pecadora. Por mim eu sei que há confidências ternas, Um poema saudoso, angustiado Se uma rosa de há muito emurchecida Rola acaso de um livro abandonado.

O espírito talvez dos tempos idos Desperta ali como invisível nume... E o poeta murmura suspirando: "Bem me lembro... era este o seu perfume!"

E que segredo não revela acaso De uma mulher a predileta essência?

Ora o cheiro é lascivo e provocante! Ora casto, infantil, como a inocência! Ora propala os sensuais anseios D'alcova de Ninon ou Margarida, Ora o mistério divinal do leito, Onde sonha Cecília adormecida.

Aqui, na magnólia de Celuta

Lambe a solta madeixa, que se estira. Unge o bronze do dorso da cabocla, E o mármore do corpo da Hetaíra. É que o perfume denuncia o espírito

Que sob as formas feminis palpita... Pois como a salamandra em chamas vive, Entre perfumes a mulher habita.