Versos Portuguese Castro Alves Poesia e Mendicidade

Portuguese poem

Poesia e Mendicidade

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Senhora! A Poesia outrora era a Estrangeira,

Pálida, aventureira, errante a viajar, Batendo em duas portas — ao grito das procelas — Ao céu — pedindo estrelas, à terra — um pobre lar!

Visão-de áureos lauréis-porém de manto esquálido, Mulher-de lábio pálido-e olhar-cheio de luz. Seus passos nos espinhos em sangue se assinalam... E os astros lhe resvalam-à flor dos ombros nus...

Olhai! O sol descamba... A tarde harmoniosa Envolve luminosa a Grécia em frouxo véu. Na estrada ao som da vaga, ao suspirar do vento, De um marco poeirento um velho então se ergueu.

Ergueu-se tateando... é cego... o cego anseia... Porém o que tateia aquela augusta mão?... Talvez busca pegar o sol, que lento expira!... Fado cruel... mentira!... Homero pede pão!

Mas ai! volvei, Senhora, os vossos belos olhos Daquele mar de abrolhos, a um novo quadro! olhai! Do vasto salão gótico eu ergo o reposteiro... O lar é hospitaleiro... Entrai, Senhora, entrei!

Estamos na média idade. Arnês, gládio, armadura Servem de compostura à sala vasta e chã. A um lado um galgo esvelto ameiga e acaricia A mão suave, esguia — à loura castelã. Vai o banquete em meio... O bardo se alevanta Pega da lira... canta... uma canção de amor...

Ouvi-o! Para ouvi-lo a estrela pensativa Alonga pela ogiva um raio de languor! Dos ramos do carvalho a brisa se debruça... Na sala alguém soluça... (amor, ou languidez?) Súbito a nota extrema anseia, treme, rola... Alguém pede uma esmola... Senhora, não olheis!...

Assim nos tempos idos a musa canta e pede... Gênio e mendigo... vede... o abismo de irrisões! Tasso implora um olhar! Vai Ossian mendicante... Caminha roto o Dante! e pede pão Camões.

Bem sei, Senhora, que ao talento agora Surgiu a aurora de uma luz amena. Hoje há salário p'ra qualquer trabalho Cinzel, ou malho, ferramenta ou penal Melhor que o Rei sabe pagar o pobre

Melhor que o nobre —protetor verdugo— Foi surdo um trono... à maior glória vossa. Abre-se a choça aos Miseráveis de Hugo. Porém não sei se é por costume antigo, Que inda é mendigo do cantor o gênio. Mudem-se os panos do cenário a esmo

O vulto é o mesmo... num melhor proscênio...

Hoje o Poeta — caminheiro errante, Que tem saudade de um país melhor Pede uma pérola — à maré montante,

Do seio às vagas-pede-um outro amor. Alma sedenta de ideal na terra Busca apagar aquela sede atroz! Pede a harmonia divinal, que encerra Do ninho o chilro... da tormenta a voz! E o rir da folha, o sussurrar da fala,

Trenos da estrela no amoroso estio. Voz que dos poros o Universo exala Do céu, da gruta, do alcantil, do rio! Pede aos pequenos, desde o verme ao tojo, Ao fraco, ao forte... preces, gritos, uivos... Pede das águias o possante arrojo,

Para encontrar os meteoros ruivos. Pede à mulher que seja boa e linda Vestal de um tipo que o ideal revela... Pois ser formosa é ser melhor ainda... Se és boa-és luz... mas se és formosa-estrela... E pede à sombra p'ra aljofrar de orvalhos

A fronte azul da solidão noturna. E pede às auras p'ra afagar os galhos E pede ao lírio p'ra enfeitar a fuma. Pede ao olhar a maciez suave

Que tem o arminho e o edredom macio, O aveludado da penugem d'ave, Que afaga as plumas no palmar sombrio. E quando encontra sobre a terra ingrata Um reverbero do clarão celeste, — Alma formada de uma essência grata, Que a lua — doura, e que um perfume veste;

Um rir, que nasce como o broto em maio; Mostrando seivas de bondade infinda, Fronte que guarda— a claridade e o raio, — Virtude e graça — o ser bondosa e linda...

Então, Senhora, sob tanto encanto Pede o Poeta (que não tem renome) — Versos - à brisa p'ra vos dar um canto... Raios ao sol — p'ra vos traçar o nome!...