Versos Portuguese Castro Alves Quando Eu Morrer

Portuguese poem

Quando Eu Morrer

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Eu morro, eu morro. A matutina brisa Já não me arranca um riso. A rósea tarde Já não me doura as descoradas faces Que gélidas se encovam.

Quando eu morrer... não lancem meu cadáver No fosso de um sombrio cemitério... Odeio o mausoléu que espera o morto Como o viajante desse hotel funéreo.

5Corre nas veias negras desse mármore Não sei que sangue vil de messalina, A cova, num bocejo indiferente, Abre ao primeiro o boca libertina.

Ei-la a nau do sepulcro — o cemitério... 10Que povo estranho no porão profundo! Emigrantes sombrios que se embarcam Para as plagas sem fim do outro mundo.

Tem os fogos — errantes — por santelmo. Tem por velame — os panos do sudário... 15Por mastro — o vulto esguio do cipreste, Por gaivotas — o mocho funerário...

Ali ninguém se firma a um braço amigo Do inverno pelas lúgubres noitadas... No tombadilho indiferentes chocam-se 20E nas trevas esbarram-se as ossadas...

Como deve custar ao pobre morto Ver as placas da vida além perdidas, Sem ver o branco fumo de seus lares Levantar-se por entre as avenidas!...

25Oh! perguntai aos frios esqueletos Por que não têm o coração no peito... E um deles vos dirá "Deixei-o há pouco De minha amante no lascivo leito."

Outro: "Dei-o a meu pai". Outro: "Esqueci-o 30Nas inocentes mãos de meu filhinho"... ... Meus amigos! Notai... bem como um pássaro O coração do morto volta ao ninho!...