Versos Portuguese Castro Alves Um dia Pigmalião — o estatuário

Portuguese poem

Um dia Pigmalião — o estatuário

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Um dia Pigmalião — o estatuário Da oficina no tosco santuário Pôs-se a pedra a talhar... Surgem contornos lânguidos, amenos... E dos flocos de mármore outra Vênus Surge dest'outro mar.

De orgulho o mestre ri... A estátua é bela! Da Grécia as filhas por inveja dela Vão nas grutas gemer... Mas o artista soluça: "O Grande Jove! "Ela é bela ... bem sei— mas não se move! "E sombra-e não mulher!"

Então do excelso Olimpo o deus-tonante Manda que desça um raio fulgurante À tenda do escultor. Vive a estátua! Nos olhos — treme o pejo, Vive a estátua!... Na boca-treme um beijo,

Nos seios — treme amor. O poeta é — o moderno estatuário Que na vigília cria solitário Visões de seio nu! O mármore da Grécia — é o novo drama! Mas o raio vital quem lá derrama?...

É Júpiter!... És tu!... Como Gluck nas selvas aprendia Ao som do violoncelo a melodia Da santa inspiração, Assim bebes atento a voz obscura Do vento das paixões na selva escura

Chamada — multidão. Gargalhadas, suspiros, beijos, gritos, Cantos de amor, blasfêmias de precitos Choro ou reza infantil, Tudo colhes... e voltas cotas mãos cheias, —O crânio largo a transbordar de idéias

E de criações mil. Então começa a luta, a luta enorme, Desta matéria tosca, áspera, informe, Que na praça apanhou. Teu gênio vai forjar novo tesouro... O cobre escuro vai mudar-se em ouro,

Como Fausto o sonhou! Glória ao Mestre! Passando por seus dedos Dói mais a dor... os risos são mais ledos... O amor é mais do céu... Rebenta o ouro desta fronte acesa! O artista corrigiu a natureza! O alquimista venceu!

Então surges, Ator! e do proscênio Atiras as moedas do teu gênio As pasmas multidões. Pródigo enorme! a tua enorme esmola Cunhada pela efígie tua rola Nos nossos corações.

Por isso agora, no teu almo dia, Vieram dando as mãos a Poesia E o povo, bem o vês; Como nos tempos dessa Roma antiga Aos pos desse outro Augusto a plebe amiga Atirava lauréis...

Augusto! E o nome teu não se desmente... O diadema real na vasta frente Cinges... eu bem o sei! Mandas no povo deste novo Lácio... E os poetas repetem como Horácio:

"Salve! Augusto! Rei!"