Versos Portuguese Cesário Verde Loira

Portuguese poem

Loira

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Eu descia o Chiado lentamente Parando junto às montras dos livreiros Quando passaste irônica e insolente, Mal pousando no chão os pés ligeiros.

O céu nublado ameaçava chuva, Saía gente fina de uma igreja; Destacavam no traje de viúva Teus cabelos de um louro de cerveja.

E a mim, um desgraçado a quem seduzem Comparações estranhas, sem razão, Lembrou-me este contraste o que produzem Os galões sobre os panos de um caixão.

Eu buscava uma rima bem intensa Para findar uns versos com amor; Olhaste-me com cega indiferença Através do lorgnon provocador.

Detinham-se a medir tua elegância Os dandies com aprumo e galhardia; Segui-te humildemente e a distância, Não fosses suspeitar que te seguia.

E pensava de longe, triste e pobre, Desciam pela rua umas varinas Como podias conservar-te sobre O salto exagerado das botinas.

E tu, sempre febril, sempre inquieta, Havia pela rua uns charcos de água Ergueste um pouco a saia sobre a anágua De um tecido ligeiro e violeta.

Adorável! Na idéia de que agora A branda anágua a levantasse o vento Descobrindo uma curva sedutora, Cada vez caminhava mais atento.

Mas súbito parei, sentindo bem Ser loucura seguir-te com empenho, A ti que és nobre e rica, que és alguém, Eu que de nada valho e nada tenho.

Correu-me pelo corpo um calafrio, E tive para o teu perfil ligeiro Este olhar resignado do vadio Que fita a exposição de um confeiteiro.

Vi perder-se na turba que passava O teu cabelo de ouro que faz mal; Não achei essa rima que buscava, Mas compus este quadro natural.