Versos Portuguese Cesário Verde Manhãs brumosas

Portuguese poem

Manhãs brumosas

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Aquela, cujo amor me causa alguma pena, Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda, E com a forte voz cantada com que ordena, Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda, Por entre o campo e o mar, bucólica, morena, Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.

Que línguas fala? A ouvir-lhe as inflexões inglesas, - Na névoa, a caça, as pescas, os rebanhos! - Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas; O meu desejo nada em época e banhos, E, ave de arribação, ele enche de surpresas Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.

As irlandesas têm soberbos desmazelos! Ela descobre assim, com lentidões ufanas, Alta, escorrida, abstrata, os grossos tornozelos; E como aquelas são marítimas, serranas, Sugere-se o naufrágio, as músicas, os gelos E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.

Parece um rural boy! Sem brincos nas orelhas, Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos, Botões a tiracolo e aplicações vermelhas; E à roda, num país de prados e barrancos, Se as minhas mágoas vão, mansíssimas ovelhas, Correm os seus desdéns, como vitelos brancos.

E aquela, cujo amor me causa alguma pena, Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda, E com a forte voz cantada com que ordena, Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda, Por entre o campo e o mar, católica, morena, Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.