Versos Portuguese Cesário Verde Noite Fechada

Portuguese poem

Noite Fechada

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Toca-se as grades, nas cadeias. Som Que mortifica e deixa umas loucuras mansas! O aljube, em que hoje estão velhinhas e creanças, Bem raramente encerra uma mulher de «dom»!

E eu desconfio, até, de um aneurisma Tão morbido me sinto, ao accender das luzes; Á vista das prisões, da velha sé, das cruzes, Chora-me o coração que se enche e que se abysma.

A espaços, illuminam-se os andares, E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos Alastram em lençol os seus reflexos brancos; E a lua lembra o circo e os jogos malabares.

Duas egrejas, n'um saudoso largo, Lançam a nodoa negra e funebre do clero: N'ellas esfumo um ermo inquisidor severo, Assim que pela Historia eu me aventuro e alargo.

Na parte que abateu no terremoto, Muram-se as construcções rectas, eguaes, crescidas; Affrontam-me, no resto, as ingremes subidas, E os sinos d'um tanger monastico e devoto.

Mas, n'um recinto publico e vulgar, Com bancos de namoro e exiguas pimenteiras, Bronzeo, monumental, de proporções guerreiras, Um épico d'outr'ora ascende, n'um pilar!

E eu sonho o Colera, imagina a Febre, N'esta accumulação de corpos enfezados; Sombrios e espectraes recolhem os soldados; Inflamma-se um palacio em face de um casebre.

Partem patrulhas de cavallaria Dos arcos dos quarteis que foram já conventos; Edade-média! A pé, outras, a passos lentos, Derramam-se por toda a capital, que esfria.

Triste cidade! Eu temo que me avives Uma paixão defunta! Aos lampeões distantes, Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes, Curvadas a sorrir ás montras dos ourives.

E mais: as costureiras, as floristas Descem dos magasins, causam-me sobresaltos; Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos E muitas d'ellas são comparsas ou coristas.

E eu, de luneta de uma lente só, Eu acho sempre assumpto a quadros revoltados: Entro na brasserie; ás mesas de emigrados, Ao riso e á crua luz joga-se o dominó.