Portuguese poem
Trigueira
by Chiquinha Gonzaga (1847–1935)
Trigueira, que tem? Feia, com essa cor, te imaginas? Tu que assim fascinas Com um só olhar dos teus! Que ciúmes tens da alvura Desses semblantes de neve Ai, pobre cabeça leve! Que te não castigue Deus!
E suspiras e murmuras... Que mais desejavas, linda? Pois serias tu mais linda Se tivesses outra cor?
Trigueira, se tu soubesses O que é ser assim trigueira Dessa ardilosa maneira Porque tu o sabes ser Não virias lamentar-te Toda sentida e chorosa Tendo inveja à cor da rosa Sem motivos para a Ter!
Trigueira, onde mais realça O brilhar duns olhos pretos Sempre úmidos, sem inquietos Do que numa cor assim? Onde o correr duma lágrima Mais encantos apresenta? E um sorriso, um só, nos tenta Como se tentou a mim?
Trigueira! Vamos, esconde Esse choro de criança Ai, que falta de confiança! Que ardilosa timidez! Enxuga os lindos olhos Então, não chores, trigueira E nunca mais dessa maneira Te manentes outra vez!