Portuguese poem
O Libertino arrependido
by Constantino José Gomes de Souza (1825–1875)
No correr da juventude Errei a estrada… perdi-me ! Sacrifiquei a virtude Sobre o negro altar do crime. Blasphemei, meu Deus, de quanto Na terra encontrei mais santo, Vosso culto e vosso altar… Fui talvez, Senhor, perdão ! Mais fraco que Salomão, Mais impio que Balthazar…
No sonho do amor primeiro, Que encanta a manhan da vida, Lancei meu porvir inteiro Aos pés da mulher perdida, Que com marmorea frieza Riu-se de tanta pureza Com risos de Satanaz… Deusa infame das orgias, Lançou a flôr de meus dias Ao fogo das paixões más.
Sorvi-lhe os beijos devassos Com soffreguidão immensa ! Adormeci nos seus braços.
Acordei sem uma crença… Quiz amor depois… Mentira ! Na minh’alma se extinguira Todo o nobre sentimento ; Só fiquei com a consciencia De minha extincta innocencia De meu negro aviltamento.
Tão moço ! E já do passado Triste, pallida ruina, Com o coração gangrenado Dos beijos da messalina ! Do porvir nem luz d’esp’rança, Do passado, atroz lembrança Do tempo que errado andei… E o resto então d’uma vida, Pelo vicio carcomida, Ao proprio vicio entreguei.
Aos pés de gentil donzella, Perdido, lancei-me um dia, E jurei que a amada, e ella Creu na jura qu’eu fazia ; E quando, ai triste ! esperava O porvir que lhe acenava D’aureos sonhos através, Da vida quebrei-lhe o encanto, De virgem rasguei-lhe o manto E rôto atirei-lhe aos pès.
Enlouqueceu de desgosto ; De sua loucura—ri-me! Cuspi-lhe depois no rosto ; Fui assim de crime em crime… E, da paixão na vertigem, Essa que fora uma virgem Lancei do mundo á irrisão.—
O mundo injusto applaudiu Do anjo a queda e o cobriu De escarneo, de maldição.
Pobre victima innocente Em ais, em pranto definha, Sofrendo a pena inclemente Da culpa qu’era só minha ! A’ alva de sua innocencia Que amor, meu Deus, que candura ! Desfolhou-se o branco lyrio Ao furor de meu delirio No abysmo da desventura.
Pobre criança ! Perdida, Pede ao céu consolação ; Pallida fronte, abatida, Ao mundo pede perdão. Mas de balde, porque o mundo, Com sarcasmo atroz, profundo, Lança-lhe em face o seu crime… Ai ! perdão para o erro seu! O criminoso—fui eu; Mas, meu Deus, arrependi-me !