Portuguese poem
Antífona
by Cruz e Sousa (1861–1898)
Ó Fórmas alvas, brancas, Fórmas claras De luares, de neves, de neblinas!... Ó Fórmas vagas, fluidas, crystalinas... Incensos dos thuribulos das aras...
Fórmas do Amor, constellarmente puras, De Virgens e de Santas vaporosas... Brilhos errantes, mádidas frescuras E dolencias de lyrios e de rosas...
Indeffiniveis musicas supremas, Harmonias da Cor e do Perfume... Horas do Occaso, tremulas, extrêmas, Requiem do Sol que a Dôr da Luz resume...
Visões, psalmos e canticos serenos, Surdinas de orgãos flébeis, soluçantes... Dormencias de volupicos venenos Sutis e suaves, mórbidos, radiantes...
Infinitos espiritos dispérsos, Ineffaveis, edênicos, aéreos, Fecundai o Mysterio destes versos Com a chama ideal de todos os mysterios.
Do Sonho as mais azues diaphaneidades Que fúljam, que na Estrofe se levantem E as emoções, todas as castidades Da alma do Verso, pelos versos cantem.
Que o póllen de ouro dos mais finos astros Fecunde e inflamme a rima clara e ardente... Que brilhe a correção dos alabastros Sonóramente, luminosamente.
Forças originaes, essencia, graça De carnes de mulher, delicadezas... Todo esse effluvio que por ondas passa Do Éther nas roseas e aureas correntezas...
Cristais diluidos de clarões alacres, Desejos, vibrações, ansias, alentos, Fulvas victorias, triunfamentos acres, Os mais estranhos estremecimentos...
Flores negras do tédio e flores vagas De amôres vãos, tantalicos, doentios... Fundas vermelhidões de velhas chagas Em sangue, abertas, escorrendo em rios...
Tudo! vivo e nervoso e quente e forte, Nos turbilhões chiméricos do Sonho, Passe, cantando, ante o perfil medonho E o tropél cabalístico da Morte...