Portuguese poem
Gusla da Saudade
by Cruz e Sousa (1861–1898)
Nunca mais, nunca mais esses teus olhos Palpitarão nos olhos seus honestos Nem hão de vê-lo em ânsias por escolhos.
Ele morreu, morreu — e os mais funestos Lutos da dor feriram como abrolhos Teu lar e os teus — serenos e modestos.
Que incalculável explosão de prantos Não inundou as almas preciosas Dos teus irmãos, da tua mãe — uns santos
Que peregrinam nestas lacrimosas Sendas da vida, em mágoas, sem encantos Como sem luz e sem orvalho as rosas.
Ah! formidável lei cruel da vida, Lei da matéria, da mudez das lousas, Da eterna noite atroz, indefinida;
Tens o segredo intérmino das cousas, E nessa dura e tenebrosa lida, Oh! nem sequer um dia só repousas.
Quem sabe, ó morte, ó lúgubre, quem sabe O teu poder fatal, desapiedado Onde se oculta e se resume e cabe.
Pois nem que o céu puríssimo, azulado Cair aos pedaços, tombe e se desabe Na profundez do abismo ilimitado
E a crença humana espavorida, em gritos, Palpando o nada, esquálida, gemendo Rasgue a amplidão de estranhos infinitos,
Nunca da morte saberão o horrendo Mistério rijo e surdo dos granitos Os corações que vivem combatendo?!...
Não! A Ciência penetrou, o estudo Do pensador, abriu mais horizontes Nesse problema silencioso e mudo.
O pensamento constelou as frontes, Deu a razão o mais brunido escudo E construiu as luminosas pontes
De onde se vai, com grande olhar, seguro, Atravessar as regiões sonoras Dos Ideais que irrompem do Futuro;
E sem contar dos séculos as horas, E sem temer as mil visões do Escuro, Alegremente ao fresco das auroras.
Mas entretanto, ó meu amigo, escuta, Toda a saudade, a grande nostalgia Nos deixa frios, mortos para a luta. Porque, olha, a morte é sempre uma agonia!