Portuguese poem
Um poema d′alma
by Ernesto Pires (1857–1884)
Do seu unico amor, — um ideal proscripto Na treva do passado, um dédalo infinito. Dirá que a sua amante era bella e franzina, Que tinha o cóllo branco, as fórmas d'uma ondina E no labio impolluto um sorriso candente, Vermelho como a côr que tem o sol ponente. Cogitará depois como é que nasce a aurora De esp′erançosa illusão e como se evapora No occaso sepulchral das coisas invisiveis! — A esperança e a illusão são sempre marcesciveis. Só temos dentro em nós um incola immudavel, Chamado soffrimento, enorme, perduravel, Nasce e morre comnosco e, seja breve ou longa Nossa estada na terra, elle nunca nos deixa! Se é larga a nossa vida a d′elle se prolonga, Só fecha os olhos seus se o nosso olhar se fecha!
II
Será inconsciente? — O′ grande monstro, ó mar! Quem ha ahi tão vão que julgue devassar Os mysterios que tens n′essas verdes entranhas?
O′ Primavera! tu, que vestes ás montanhas, Aos cerros, aos jardins, aos oiteiros e aos prados, Os trajos festivaes, os trajos perfumados, Urdidos com a flôr das frescas balsaminas, Da rosa, do jasmim, do lirio e das boninas; Tu, que tens no teu seio as noites constelladas E no labio vermelho as brancas madrugadas; Tu, que trazes no olhar scintillações ardentes, Como os beijos das mães e as orações dos crentes; Tu, que és a inspiração das nossas phantasias, Que ás andorinhas dás um ninho e ás cotovias Uma argentina voz para saudar a aurora, Sabes o que é amor, ó fada encantadora?
Esplendoroso sol, que passas no horisonte, Levando um mar de fogo a salpicar-te a fronte, Grande fecundador da vasta natureza, Tu, que nos dás a luz, o calor e a riqueza, Tu, que fórmas a chuva e que fórmas os ventos, Que és um grande portento, entre os maiores portentos, Dize, ó astro gentil, ó astro protector, Tu pódes comprehender a immensidão do amor?
O′ lua, ó confidente eterna do poeta, Que vae sob o balcão da timida Julieta A deshoras chorar apaixonado canto,
O′ lua, tu, que tens reflectido no pranto De mais d′um infeliz os teus raios siderios, Desvendaste do amor os innumeros mysterios?
— Talvez!... O mar, a lua, o sol, a primavera, A natureza emfim, que é nossa mãe austera, Tem fortes crispações de extranho movimento. A tempestade, a paz, o cahos e o firmamento, As luctas da materia, as transições do esp′rito, Desde o odio inclemente ao affecto materno, Desde a alegria leda ao soffrimento afflicto, São paginas fataes, escriptas pelo Eterno Que a humanidade lê e por mais que medita Não póde comprehender. O′ crença tão bemdicta, Que immensuravel és! desde o Creador ao homem, Da casta sensitiva ás heras parasitas, Das infernaes paixões que o peito nos consomem A′s crenças varonis bem fundamente escriptas Em nossos corações, entreabre-se um abysmo Fascinador, voraz, a que a Philosophia Que faz a Evolução nas forjas do realismo, Inda não fez baixar um só raio do dia!
III
Como um brilhante sol, nos ceus da phantasia, E ver, pouco e pouco, desfazer-se a esperança, Sentir que o coração já de pulsar se cança, Que se vae apagando aquelle nosso ideal Nas trevas infernaes, ao vir do vendaval; Ver em cada uma estrella o rosto illuminado Da formosa mulher, que nos tem fascinado, E em cada uma flôr, — a recender perfumes, Como dardejam luz esses sagrados lumes, Que tem em si o fogo, a espelhação do aço Que vão a deslumbrar, na amplidão do espaço, — A imagem da sua alma, immaculada e franca, Como o olhar de Jesus e a alvura da hostia branca; Depois fitar o ceu e vel-o já deserto, Olhar para essa flôr e vel-a resequida, Buscar dentro do peito o espectro d′um affecto, (Do peito sem amor, sem fé e já sem vida!) E′ triste expiação a quem só fez o crime De ter um coração, apaixonado e amante, Que louco se curvou, flexivel, como um vime, A′ luz d'um terno olhar, traidor e fulminante!
E é essa a expiação cruel que tem haurido Esta alma, angustiada em duro soffrimento, Desde que viu passar o bando foragido Das suas illusões, na aza do pensamento.