Versos Portuguese Fernando Pessoa Bem, hoje que estou só e, posso ver

Portuguese poem

Bem, hoje que estou só e, posso ver

by (1888–1935)

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Bem, hoje que estou só e posso ver Com o poder de ver do coração Quanto não sou, quanto não posso ser, Quanto se o for, serei em vão,

Hoje, vou confessar, quero sentir-me Definitivamente ser ninguém, E de mim mesmo, altivo, demitir-me Por não ter procedido bem.

Falhei a tudo, mas sem galhardias, Nada fui, nada ousei e nada fiz, Nem colhi nas urtigas dos meus dias A flor de parecer feliz.

Mas fica sempre, porque o pobre é rico Em qualquer cousa, se procurar bem, A grande diferença com que fico. Escrevo-o para o lembrar bem.