Portuguese poem
Bem sei que há ilhas lá ao sul de tudo
by Fernando Pessoa (1888–1935)
Bem sei que há ilhas lá ao sul de tudo Onde há paisagens que não pode haver. Tão belas que são como que o veludo Do tecido que o mundo pode ser.
Bem sei. Vegetações olhando o mar, Coral, encostas, tudo o que é a vida Tornado amor e luz, o que o sonhar Dá à imaginação anoitecida.
Bem sei. Vejo isso tudo. O mesmo vento Que ali agita os ramos em torpor Passa de leve por meu pensamento E o pensamento julga que é amor.
Sei, sim, é belo, é luz, é impossível, Existe, dorme, tem a cor e o fim, E, ainda que não haja, é tão visível Que é uma parte natural de mim.
Sei tudo, sim, sei tudo. E sei também Que não é lá que há isso que lá está Sei qual é a luz que essa paisagem tem E qual o mar por que se vai para lá.