Portuguese poem
Calma
by Fernando Pessoa (1888–1935)
Que costa é que as ondas contam E se não póde encontrar Por mais naus que haja no mar? O que é que as ondas encontram E nunca se vê surgindo? Este som de o mar praiar Onde é que está existindo?
Ilha próxima e remota, Que nos ouvidos persiste, Para a vista não existe. Que nau, que armada, que frota Póde encontrar o caminho À praia onde o mar insiste, Se á vista o mar é sósinho?
Haverá rasgões no espaço Que dêem para outro lado, E que, um d'elles encontrado, Aqui, onde ha só sargaço, Surja uma ilha velada, O paiz afortunado Que guarda o Rei desterrado Em sua vida encantada?