Portuguese poem
Catarina a Camões
by Fernando Pessoa (1888–1935)
I
P'ra a porta onde não surges nem me vês Há muito tempo que olho já em vão. A esperança retira o seu talvez; Aproxima-se a morte, mas tu não. Amor, vem Fechar bem Estes olhos de que dissestes ao vê-los: O lindo ser dos vossos olhos belos.
II
Quando te ouvi cantar esse bordão Nos meus de primavera alegres dias; Todo alheio louvar tendo por vão Só dava ouvidos ao que tu dizias – Dentro em mim Dizendo assim: "Ditosos olhos de que disse ao vê-los: O lindo ser dos vossos olhos belos."
III
Mas tudo muda. Nesta tarde fria O sol bate na porta sem calor. Se estivesse aí murmuraria Como dantes tua voz – "amo-te, amor"; A morte chega E já cega Os olhos que ontem eram teus desvelo O lindo ser dos vossos olhos belos.
IV
Sim. Creio que se a vê-los te encontrasses Agora, ao pé do leito em que me fino, Ainda que a beleza lhes negasses, Só pelo amor que neles eu defino Com verdade E ansiedade Repetirias, meu amor, ao vê-los: O lindo ser dos vossos olhos belos.
V
E se neles pusesse teu olhar E eles pusessem seu olhar no teu, Toda a luz que começa a lhes faltar Voltaria de pronto ao lugar seu. Com verdade E ansiedade Dir-se-ia como tu disseste ao vê-los: O lindo ser dos vossos olhos belos.
VI
Mas – ai de mim! – tu não me vês senão Nos pensamentos teus de amante ausente, E sorrindo talvez, sonhando em vão, Trás o abanar do leque levemente; E, sem pensar, Em teu sonhar Iras talvez dizendo sempre ao vê-los: O lindo ser dos vossos olhos belos,
VII
Enquanto o meu espírito se debruça Do meu pálido corpo sucumbido, Ansioso de saber que falas usa Teu amor p'ra meu espírito ferido, Poeta, vem Mostrar bem Que amor trazem aos olhos teus desvelos – O lindo ser dos vossos olhos belos.
VIII
Ó meu poeta, ó meu profeta, quando Destes olhos louvaste o lindo ser, Pensaste acaso, enquanto ias cantando, Que isso já estava prestes de morrer? Seus olhares Deram-te ares De que breve podias não mais vê-los, O lindo ser dos vossos olhos belos.
IX
Ninguém responde. Só suave, defronte, No pátio a fonte canta em solidão, E como água no mármore da fonte, Do amor p'ra a morte cai meu coração. E é da sorte Que seja a morte E não o amor, que ganhe os teus desvelos – O lindo ser dos vossos olhos belos!
X
E tu nunca virás? Quando eu me for Onde as doçuras estão escondidas, E onde a tua voz, ó meu amor, Não me abrirá as pálpebras descidas, Dize, amo meu, "O amor, morreu!" Sob o cipreste chora os teus desvelos – O lindo ser dos vossos olhos belos.
XI
Quando o angelus toca à oração, Não passarás ao pé deste convento, Lembrando-te, a chorar, do cantochão Que anjos nos traziam do firmamento? No ardor meu Eu via o céu E tu: "O mundo é vil, ó meus desvelos, Ao lindo ser dos vossos olhos belos?"
XII
Devagar quando, do palácio ao pé, Cavalgares, como antes, suave e rente, E ali vires um rosto que não é O que vias ali antigamente, Dirás talvez "Tanta vez Me esperaste aqui, ó meus desvelos Ó lindo ser dos vossos olhos belos!"
XIII
Quando as damas da corte, arfando os peitos, Te disserem, olhando o gesto teu, "Canta-nos, poeta, aqueles versos feitos Àquela linda dama que morreu", Tremerás? Calar-te-ás? Ou cantarás, chorando, os teus desvelos – O lindo ser dos vossos olhos belos?
XIV
"Lindo ser de olhos belos!" Suaves frases E deliciosas quando eu as repito! Cem poesias outras que cantasses, Sempre nesta a melhor terias dito. Sinto-a calma Entre a minha alma E os rumores da terra ? pesadelos: – O lindo ser dos vossos olhos belos.
XV
Mas reza o padre junto à minha face, E o coro está de joelhos todo em prece, E é forçoso que a alma minha passe Entre cantos de dor, e não como esse. Miserere P'los que fere O mundo, e p'ra Natércia, os teus desvelos – O lindo ser dos vossos olhos belos.
XVI
Guarda esta fita que te mando (Tirei-a dos cabelos para ti). Sentir-te-ás, quando o teu choro arda, Acompanhado na tua dor por mi; Pois com pura Alma imperjura Sempre do céu te olharão teus desvelos – O lindo ser dos vossos olhos belos.
XVII
Mas agora, esta terra inda os prendendo, Desses olhos o brilho é inda alado... Amor, tu poderás encher, querendo, Teu futuro de todo o meu passado, E tornar A cantar A outra dama ideal dos teus desvelos: O lindo ser dos vossos olhos belos.
XVIII
Mas que fazeis, meus olhos, ó perjuros! Perjuros ao louvor que ele vos deu, Se esta hora mesmo vos não mostrais puros De lágrima que acaso vos encheu? Será forte Choro ou morte Se indignos os tornar de teus desvelos – O lindo ser dos vossos olhos belos.
XIX
Seu futuro encherá meu 'spírito alado No céu, e abençoá-lo-ei dos céus. Se ele vier a ser enamorado De olhos mais belos do que os olhos meus, O céu os proteja, Suave lhes seja E possa ele dizer, sincero, ao vê-los: