Portuguese poem
O mar jaz. Gemem em segredo os ventos
by Fernando Pessoa (1888–1935)
O mar jaz. Gemem em segredo os ventos Em Eolo cativos, Apenas com as pontas do tridente Franze as águas Neptuno, E a praia é alva e cheia de pequenos Brilhos sob o sol claro. Eu quisera, Neera, que o momento, Que ora vemos, tivesse O sentido preciso de uma frase Visível nalgum livro. Assim verias que certeza a minha Quando sem te olhar digo Que as coisas são o diálogo que os deuses Brincam tendo connosco. Se esta breve ciência te coubesse, Nunca mais julgarias Ou solene ou ligeira a clara vida, Mas nem leve nem grave, Nem falsa ou certa, mas assim, divina E plácida, e mais nada.
6-10-1914