Versos Portuguese Fernando Pessoa Os Poemas Finaes de Edgar Poe

Portuguese poem

Os Poemas Finaes de Edgar Poe

by (1888–1935)

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Foi ha muitos e muitos annos já, Num reino de ao pé do mar. Como sabeis todos, vivia lá Aquella que eu soube amar; E vivia sem outro pensamento Que amar-me e eu a adorar.

Eu era creança e ella era creança, Neste reino ao pé do mar; Mas o nosso amor era mais que amor — O meu e o d'ella a amar; Um amor que os anjos do céu vieram A ambos nós invejar.

E foi esta a razão porque, ha muitos annos, Neste reino ao pé do mar, Um vento sahiu d'uma nuvem, gelando A linda que eu soube amar; E o seu parente fidalgo veio De longe a me a tirar, Para a fechar num sepulchro Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu, Ainda a nos invejar... Sim, foi essa a razão (como sabem todos, Neste reino ao pé do mar) Que o vento sahiu da nuvem de noite Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor De muitos mais velhos a amar, De muitos de mais meditar,

E nem os anjos no céu lá em cima, Nem demonios debaixo do mar Poderão separar a minha alma da alma Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos Da linda que eu soube amar; E as estrellas nos ares só me lembram olhares Da linda que eu soube amar; E assim stou deitado toda a noite ao lado Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado, No sepulchro ao pé do mar, Ao pé do murmurio do mar.

O céu era livido e frio, As folhas de um louro mortal, As folhas de um secco mortal; Era noite no Outubro vazio No fim do meu anno fatal; Era ao pé d'esse lago sombrio Na media região spectral — Era perto do pego sombrio Na fria floresta spectral.

Aqui, por uma alea titanica, Cyprestea, errei com minha alma — Cyprestea, com Psyche, minha alma. Eram dias de mente vulcanica Como o rio que quente se espalma — Como a lava que em rio se espalma, Em furia sulphurea e vesanica Nas ultimas terras sem calma — Que geme com magua vesanica Nas terras extremas sem calma.

Cada um no fallar fôra frio, Mas na alma d'um gelo mortal — Na alma d'um dolo mortal, Pois não demos p'lo Outubro vazio Nem p'la noite do anno fatal — (Ah noite entre todas fatal!),

Nem notámos o lago sombrio (Que outrora já viramos tal), Nem lembrámos o pego sombrio Nem a fria floresta spectral.

Mas a noite era já senescente E os astros sonhavam com dia — E os astros mostravam o dia, Quando um baço luzir liquescente Ao fim do caminho surgia, E da luz se formou um crescente Que com pontas distinctas luzia — O de Astarte subido crescente Com as pontas agudas luzia.

E eu disse, «Ella é lua em verão, Num ether de amor a boiar; Vae num ether de ardor a boiar. Viu que as lagrimas não poderão Nestas faces comidas seccar, E as estrellas passou do Leão O caminho do céu a mostrar — A paz que ha nos céus a mostrar; Veio aqui apesar do Leão Nos trazer o amor no olhar — Atravez da caverna do Leão Com amor no seu lucido olhar.»

Mas Psyche, erguendo seu dedo, Disse, «Nada a esta estrella me dou — A seu pallido ser me não dou. Não tardeis! Não tardeis! Vinde cedo Para longe, onde a alma está só.» Fallou pallida e triste, e com medo Suas azas cahiram no pó — Soluçou angustiada, e com medo Suas plumas roçaram no pó, Tristemente roçaram no pó.

Respondi, «Isto é sonho sòmente. Que nos guie esta tremula luz! Que nos banhe esta nitida luz! Seu sibyllio splendor é fulgente De belleza e speranças a flux —

Ah, no ar e na noite stá a flux! Confiemos em sua luzente Visão que nos certos conduz! Poderemos confiar na luzente Visão que nos certos conduz, Que na noite e no ar stá a flux.»

E a Psyche eu affago e a beijo, E a tiro da dor que a consume — Da duvida e a dor que a consume, E no fim do caminho nos vejo Que um sepulchro com porta resume» Um sepulchro lendario resume. Perguntei, «Que legenda é que vejo Que esta lugubre porta resume?» E ella disse, «Ulalume! Ulalume! Stá aqui tua amada Ulalume!»

E o meu ser ficou livido e frio Como as folhas d'um louro mortal — Como as folhas d'um secco mortal, E exclamei, «Era o Outubro vazio, E esta noite do anno fatal, Que aqui vim, aqui vim afinal, Que aqui trouxe esse fardo final! Nesta noite de todas fatal Que demonio me trouxe afinal? Ah, conheço este lago sombrio, Esta media região spectral ! Bem conheço este pego sombrio E esta fria floresta spectral!»