Versos Portuguese Fernando Pessoa Outro

Portuguese poem

Outro

by (1888–1935)

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Passo triste no mundo, alheio ao mundo. Passo no mundo alheio, sem o ver, E, mystico, ideal e vagabundo, Sinto erguer-se minh'Alma do profundo Abysmo do meu Ser.

Vivo de Mim em Mim e para Mim E para Deus em Mím resuscitado. Sou Saudade do Longe d'onde vim, E sou Ansia do Longe em que por fim Serei transfigurado.

Vivo de Deus, em Deus e para Deus, E minh'Alma, somnambula esquecida, N'Elle fitando os tristes olhos seus, Passa triste e sósinha olhando os céus No caminho da Vida.

Fui Outro e, Outro sendo, Outro serei, Outro vivendo a mystica belleza Por esta humana fórma que encarnei, Por lagrimas de sangue que chorei Na terra de tristeza.

Espirito na Dôr purificado, Ser que passa no mundo sem o ver, Em esta pobre terra de peccado Amor divino em Deus extasiado, O meu Ser é Não-Ser em Outro-Ser.

Lisboa--1914.

CÔRTES-RODRIGUES.