Portuguese poem
*Canto Iii.*
by Francisco de Paula de Figueiredo (1768–1803)
Neste tempo no imperio de Neptuno Ja com todo o calor fervia a obra. Os fortes Generais debaixo d'armas Ja tinhaõ toda a jente, e á Luzitania Os vastos esquadroins marxando vinhaõ. Aqui de remotisimos Paízes, De diversas Nasoins, diversas linguas Vinhaõ mandando Capitains diversos, Aqui vinhaõ Varoins destes pixozos A quem tudo lhe fede, e que somente, Por cauza das corrutas baforadas, C'o vinho em odio eterno andáraõ sempre, Aqui de mal Francês, e de almorreimas Um sem numero vinha de axacados: Naõ faltando dos cálidos a turba A quem fizera sempre o vinho empôlas. Era em tres batalhoins formada a Tropa, Guiava um batalhaõ Periclimeno Arrogante, e temido: outro Achelóo, E o terceiro puxava á retaguarda O velho Espozo da cerulea Doris. Aqui vinha Protêo dos grandes Focas Regendo a tremendisima caterva. Talhando as curvas ondas na vanguarda Iaõ nadando cem Tritoins desformes Fazendo rebombar os buzios grandes. E o Padre Oceano comandante Supremo deste exercito temivel Girava dando as ordems amontado N'uma negra baleia monstruoza.
Xegáraõ do aureo Tejo em fim ás marjems, Mas antes que o exercito alojase, Desta nova xegada em tom de guerra Lhe foraõ dois Trombetas a dar parte.
No centro d'uma gruta penhascoza, Cujas ricas paredes eraõ d'oiro, E branca madrepérola ondeante, Sentado sobre a urna, respeitavel C'o tridente na mão, e c'uma c'roa De verdes limos na rugoza fronte A embaixada resebe o Padre Tejo. Quando asim dos Trombetas um comesa.
Ja, Padre venerando, aos teus ouvidos Xegaria talvês a novidade Da guerra que entre nós, e o Rei dos vinhos Pouco ha se declarou. Naõ me pertense Os motivos da asaõ esmiunsarte: Taõ somente a dizerte sou mandado, Que para dar principio á grande empreza Para esta Capital do imperio Luzo Das Tropas Oceano á testa marxa. Deves pois vir falarlhe; que eu asento Que tem primeiro aqui seu bico d'obra.
Subia pelo rosto ao velho Tejo Ao tempo desta fala uma alegria, Que ja mais asomára ao seu semblante. Levantase, o Palacio se alvorósa, E para ir esperar taõ grande xefe As mais galhardas Nimfas a si xama.
Duzentas niveas, engrasadas Naides De lindos olhos, que em prazer trasbordaõ, Solto o negro cabelo gotejante Presto ali se aprezentaõ caprixozas. Ao carro sóbe o Tejo, ao carro d'oiro Que guapos, e das muito-abertas ventas Brotando soberboins torrentes d'agua, Seis cavalos marinhos vaõ tirando. Em malhados golfinhos brincadores Asentadas as Naiades o cercaõ. O mar fas-se banzeiro, e longa esteira Mansamente deixando a turba marxa.
Xegados que os dois Reis á fala foraõ O Tejo rompe asim: Princepe excelso, Se um pobre feudatario, bem que indigno, Qual eu sou, gozar pode a onra eximia De darte albergaria em seu palacio, As demoras desprende, e á minha gruta Dignase vir a descansar um pouco, Aonde a noso comodo sentados Da sorte dos Imperios trataremos.
Oceano aseitou condescendente Do Padre Tejo a simples rogativa, E acolhendose á gruta majestoza,
Indignado meu Pai, dise Oceano, Pela iniqua extorsão de seus direitos, Que dos vinhos o Rei dezaforado Das jentes com escândalo lhe ha feito, Intenta guerrealo. Ele em pesoa Viria á expedisaõ, se de seus anos O pezo desta glória o naõ priváse. Por tanto eu me incumbi das suas vezes: E como de sua Corte na asembleia Para isto convocada se asentase, Que o comêso em teu Reino ser devia, Visto que o General dos inimigos Em Coimbra rezide; pareseume, Por levarmos as coizas com mais ordem, Que nesta Capital sem perder tempo A primeira faxina se fizese: Depois, de meu poder com todo o pezo Em Coimbra caísemos. Aprouve Ao Tejo este discurso; e entaõ tratáraõ De mais ponderasaõ quantos negocios Para aquele respeito mais tendiaõ, Saõ xamados os Cabos a conselho, E com acordo unânime se adía A seguinte manhan para o combate.
He contra um grande Cabo que se devem Tomar as armas: naõ he Jan Fernandes, Nem Manel das Atacas o inimigo: He contra o fasanhozo Talaveiras Tortulho enorme de invejada fama, Do vinho na milicia experto, e vasto.
Tanto que alvoreseu, logo no campo As trombetas orrísonas bramáraõ; Cujo som de mistura c'o alarido, E roucos atabales largo espaso Os muros fes tremer, e a gran Cidade Soberba fundasaõ do Grego errante. Ja promto o Talaveiras aguardava De Cilenio o preseito a pôr por obra. Na frente de seus bebados soldados Corajozo se avansa: róxa altiva Que as vagas sem pavor mujindo escuta. Marxando vaõ as filas a compaso, E d'uma, e d'outra parte embravecido O gradivo Mavorte asende os peitos. As caixas daõ final, travase a guerra; De poeira uma nuve os ares turba; Levantase um clamor mais tezamente; Redobraõse as pancadas, corre o sangue... Nada ha mais lamentavel que uma guerra!
Foi renhida a peleja: longas oras Pendeu a decizaõ n'ambas as partes. Finalmente naõ sei que infausto cazo Pôs dos vinhos o exercito em dezordem, Que naõ pôde aguentar sobre seus brasos Dos aquozos dragoins o carregume. Perdem todos a côr, as armas largaõ. (Entradas de leaõ, saídas d'asno!) Cae aqui, cae ali, ums sobre os outros Vaõ indo aos trambolhoins. O Talaveiras Reunilos intenta, mas de balde. He de balde bradar: diques naõ sofre Torrente por pavor precipitada.
No campo ficou so inteiro e forte. O golpe universal caíu sobre ele. Das setas, e das lansas acravado Parecia um pinhal o grande escudo. Nimguem ouzou xegarlhe, que da terra Naõ fizese vermelha a superfice.
E que mais fês d'Olimpias o esforsado Filho, o devastador do mundo invicto, Junto ao tronco, dos seus destituido, Quando o muro saltou dos Oxidracas?
Mas a Morte d'Erois sempre avarenta Metida n'uma bala fulminante As pernas lhe atravesa, e despedasa. Acurva a grosa máquina tremendo, E em terra baqueando he maxucada Do violento tropel dos inimigos. C'o este lanse vitoria o Tejo brada: Vitoria, respondeu a xusma ovante, Vitoria pelas aguas, viva, viva.
Periclimeno: Neto de Neptuno, de quem recebeu o poder de se metamorfozear.
Achelóo: filho de Oceano. Namorouse de Dejanira amante de Hercules. Hercules combateu com ele metamorfozeado em toiro, arrancoulhe um corno, e venseu-o.
O Velho, &c. Nerêo, filho de Oceano, e pai das Nereides.
Protêo: vej. Virg. Georg. I. 4. v. 429.
Um dos Taverneiros de grande conta que Lisboa teve. Na dilatada teia de seus louvores saõ estes meus versos um romendinho.