Portuguese poem
*Canto Vii.*
by Francisco de Paula de Figueiredo (1768–1803)
Entretanto em Coimbra amotinada Era inda o pasmatorio inexplicavel Por cauza do trovaõ medonho, e orrivel, Que desde os fundamentos abalára As altas cazas, e fizera aos sinos Por si mesmos tocar nos campanarios. Soava Saõ Jeronimo inda em partes, E em outras Santa Barbara bemdita Com espantozos berros; e a vizinha Á timida vizinha inda contava Das viboras de fogo côr de enxofre, Que tortuozas rápidas caíraõ.
Os dois obézos vultos, que sozinhos Pelas sombras da noite caminhavaõ Vinhaõ asustadisimos: em bica Lhes corria o suor, e sem falarem Só vinhaõ nas camandolas sebentas Ave Marias mil, e Padre Nosos Ums apôs outros engolindo a medo. A caza em fim xegáraõ, e por terra Depois de averem dado aos Ceos as grasas Pelos ter dos perigos defendido, Entaõ uma Sobrinha por miudo As coizas lhes contou que se pasavaõ. Diselhes, que depois que eles se foraõ Ao seu divertimento, na Cidade Em nenhuma outra coiza se falava Senaõ no grande risco a que seu Tio Tinha ficado exposto; que entre dentes Naõ sei que se rosnava; pois que o Xefe Inimigo tentava armar ocultas, Fraudolentas traisoins; que era precizo Cautela, e mais cautela: acrescentando Que teve ums sonhos (de que Deos nos livre) Mesmo áquele respeito asás funestos. No que naõ creu o Eroi; porem Madama C'o a noticia em extremo intimidada, Asentando que ali avía agoiro, Fês que viese a caza no outro dia Uma ábil Franxinota a lerlhe a sina.
Asim foi: uma veio asás jocoza De cabasa, e bordaõ, trincos nas repas Formados em torcidos papelotes, Pálidas maõs, agaloadas unhas, Altas as saias com franjoins de lama, Mursa nos ombros de ensebado coiro Com redondas conxinhas matizada, E um de languidas ábas xapeo ruso Com varios em redor Santiaguinhos No alto da cabesa côr de estriga.
Era esta sagacisima, adestrada, Mestra no ultimo ponto em Chiromancias. Olhou, examinou, tomou medidas, Mas viu mil cruzes na polpuda palma Do magnanimo Eroi, mil entrelinhas Cortando inteiras linhas, mil figuras, Mil indicios em fim de agoiro aziago,
De caza em todos toma pose o susto: Parese cada cara uma laranja.
Porem o Santareno que prezume Ser em materias tais dezabuzado, Que nunca em Bruxas creu, ou Lobizomes, Deita estas coizas para trás das costas. Trata de divertirse, e em mais naõ pensa.
Ai de quem da memoria o adagio varre Quem inimigos tem dormir naõ deve!
Xegada estava entaõ uma romajem Dia de Pentecoste, onde Coimbra Em pezo aos Olivais sair costuma. He esta uma funsaõ das mais luzidas Daqueles arrabaldes; ali entra Tudo o bom, e bonito; ali se encontra Todo o recreio de qualquer espece. Veemse ali jocozisimas Comedias No amplo teatro do arraial vistozo. Veemse as Trajedias de orrorozo aspéto A sena ensanguentarem. D'uma parte Esgrimese com ansia a espada preta, D'outra em jogo de páo soa a lambada. Aqui n'umas mezinhas enfeitadas Mosas de arromba, que os tafuis arrastaõ, Vendem d'envolta c'o as xulises torpes Sédiso doce de mil castas feito. Ali nas asadeiras xia a carne: Esta freje a sardinha, aquela os ovos, Uma vende agua ardente, outra beijinhos. A fresca como neve limonada De resto ali se trata: ali triumfante, Como em brilhante trono, sobre um carro De cana, parra, e loiros enramado, Adoradores mil em torno tendo, Vêse a sine-qua-non excelsa Pinga.
E que peito de páo, que alma de palha Poderá insensivel n'um tal dia Ao recreio negar entrada franca? Um omem de bom senso, e que se préza Ser da onra, e do respeito alumno serio Ha neste dia de trancar insano Em masmorra domestica o seu gosto?
Naõ era, o noso Eroi naõ era filho De pai que tal fizese. Espoza cara, Dis ele, he nesesario naõ perdermos Os uzos, e costumes: he xegada A minha romaria: resta veres O que eide merendar; pois tu bem sabes Que nisto da funsaõ consiste o todo.
Mas a crédula Espoza, a quem agoiros Sempre grande impresaõ fizeraõ n'alma Aflita com exceso asim lhe argúe:
Onde queres tu ir? Tu serás doido? Credo! Apelo eu! Lenho da Crus Santa! Naõ vês, alma de Deus, como danados Andaõ teus inimigos de alcateia A ver se te devoraõ? Tu naõ queres Inda acabar de crer? Eu bem te avizo. Se queres merendar, merenda em caza, Deixa lá ir quem vai á romaria. Bem viste a Franxinota o que te dise Quando lendo te esteve a buena dicha.
Ai, temos conversado, a Deus Senhora; Quero ir á romaria, tenho dito (Replíca ele agastado) vá dar ordem A um fardel em termos: ca por ora As Aguas nunca me fizeraõ papo: Naõ temo de nimguem, só de Deus temo.
Com efeito apromtouse uma merenda, Que para outro qualquer fôra um banquete. Era uma perna de vitela tenra Com Anjelico molho temperada Segundo os boms preseitos que arte ensina; (Ele a tinha aprendido com boms Mestres) De prezunto era um grande pratarrazio, De porco quatro pés, seis orelheiras, Uma lebre, um leitaõ, sete coelhos, Ou láparos talvês; afóra o lombo Que estivera ate'li de vinho d'alhos Iaõ sinco ou seis pains de imensa mole; Coroando por fim a obra toda Xeia de vinho a pel'd'um bode d'ampla Desmedida grandeza: odre admiravel, Qual nunca em seus opíparos banquetes Teve de Bromio o orelhudo Socio.
Mas vem a cada porco um S. Martinho. Em fim he tempo, os duros Fados instaõ, E Lachesis da roca por momentos Vai tirar ao Eroi o ultimo fio.
Da partida se trata: a carga opíma Da profuza merenda em dois alforjes Um burro fas vergar: na maõ c'o as contas, E c'o a borraxa á cinta, o Santareno A maguada Espoza prende, e abrasa; E entre doces coloquios até a noite Seguro se despede. Mizerando Que ignora que esta noite ao prazo dada He por ordem dos Ceos a noite eterna! Entaõ tres vezes que dirije os pasos Da porta ao lumiar, tres vezes dentro Se torna perturbado, inquieto, mudo. Preságo o corasaõ dentro no peito Agitado lhe bate: mil lembransas De montaõ o atacaõ: anda, pára, Nem sabe a decizaõ que tomar deva. Mas se o que tem de ser, tem muita forsa, Com eroico valor tanto imbecilho Rompendo finalmente a estrada avansa.