Portuguese poem
*Canto Vi.*
by Francisco de Paula de Figueiredo (1768–1803)
Geme o Padre Oceano inconsolavel No fundo de seu peito, e mais aguda Comesa a renovarse a dôr antiga. O malogrado fim de seus dezenhos He um dardo punjente, que as entranhas Lhe pica, e despedasa; e quem naõ soube Dos purpureos Erois ceder ás forsas, Em fim cede á mortal melancolia. Tanto póde a paixaõ n'uma alma grande!
Fexase triste no tentorio Regio; Nimguem ouza falarlhe; solitario Só quer por companhia o pensamento.
Pasadas oito oras em silencio Manda entrar os seus Cabos: pensativo Sobre a meza encostado o cotovelo Na maõ esquerda descansava o rosto, Gotejandolhe em lagrimas banhadas As venerandas cans da longa barba.
Amados filhos (vagarozamente Tendo erguido o semblante macilento Asim lhes dis) Amados filhos, nunca Taõ fera atasalhou meu peito forte A tirana Paixaõ! Nunca minh'alma Tanto vi afracar!... Fatal derrota Foi esta que no livro do Destino Lavrada estava em caratéres negros Pela férrea maõ da atrós Desgrasa! Nosas forsas (as forsas invenciveis Que tem amedrentado o mundo inteiro!) Abatidas as vedes, destrosadas Por barbaros Salvajems, por ums brutos Que nada por si tem mais que fortuna. He pois tempo, surjâmos acordados Deste pelago vil de cobardia Onde a triste vergonha nos asoita. Para o imigo venser quem se embarasa Que aja esforso, e valor, ou que aja dolo? O que forsas naõ daõ, ardís alcansem. Todo aquele que vir que melhor póde Ao exito xegar do que intentamos Meta maõs ao trabalho, dêse présa E reduza a pedasos esta canga Que tanto no caxaso nos carrega.
Levantase do asento entaõ pacato O Velho guardador dos grandes Focas, E no meio do cónclave luzido Dest'arte descarrega a consciencia.
Até'gora eu naõ quis a colherada Nestas coizas meter; vós tendes feito, Tendes acontecido, sem quererdes Pedirme, nem ouvir os meus concelhos, Porem quando a tortura a tal extremo As coizas vai levando, oporme devo, E servir a meu Rei, qual poso, e valho. Os Deuzes, caro Pai, tem-me ensinado As coizas do por-vir caliginozo, Eu antevi estes dezastres feios, Mas eu sem ser forsado naõ predigo. Por castigo talvês dos Deuzes fose Ao voso dezacordo.... Porem basta, Ja tudo se pasou, agora eu mesmo Tomar á minha conta a empreza quero. Socega, amado Pai, o Eroi da pinga De meus tiros o alvo a ser comesa.
Recobrou novos animos o Padre, E do filho nos ombros sempre firmes O pezo descansou da grande guerra.
Proteo, que nos ardís exp'rimentado Fôra sempre instrumento a mil fasanhas; E cuja calva frente laureada De importantes facsoins sempre saíra, Um pouco sobre o cazo consid'rando, Este acordo felis contente abrasa. Vaise ter com a Astucia enganadora. He esta uma rolisa Mosatona, Que vestida de peles de rapoza, E empunhando na dextra um rico cetro Domina sobre os omems; manda, impera Os indomitos tigres, quais cordeiros.
Em quanto pois bulindo dezenvolta Lhe xamejaõ os olhos inquietos Por ouvir o que quer dizerlhe o Velho,
Eu quero, lhe dis ele, que te empenhes Agora em socorrerme quanto pódes. De Baco um General meu inimigo, Xamado por alcunha o Santareno, Do esforso ou da fortuna socorrido Tem triumfado das aguas. Oceano Ja derrotada a flor de sua jente Suspira inconsolavel. Mas dos livros Do tremendo Destino irrevogavel Eu sei que o Santareno ao ferro ao fogo Naõ tem de dar a vida nas batalhas; Pois uma pouca d'agua em ora infausta Bebida, ha de arrancarlhe ao corpo o sprito. O buzilis porem consiste agora Em fazerlha beber sem que ele o saiba, Por quanto este animal temlhe odio eterno. Todavia a este laso que lhe tramo Fugir naõ poderá. N'um arrabalde Naõ lonje da Cidade, brevemente Farsehá uma funsaõ que ele naõ perde. Aqui pela canseira do caminho Moído xegará, suado, e laso. Forsozo he pedir vinho, isto naõ falha. Tu pois, que és marralheira, ásde mui prestes Em sua mesma Môsa transformarte; E eu tornado em agua facilmente Na vazilha entrarei que tu lhe deves Lampeira ministrar. Ele sedento Nem se he vinho, ou se he agua reparando A enfuza vazará no grande buxo. Deste modo a meu salvo os intestinos Ávido devorando o darei morto, E terei concluido a grande empreza. Vamos pois sem demora vem comigo.
Vamos onde quizeres; insofrida A Astucia respondeu. E logo promptos Metidos n'uma nuvem negrejante Tirada por seis Euros rujidores, Despejando coriscos sentelhantes Ao orrorozo som d'um trovaõ grande Sobre a airoza Coimbra em fim baixáraõ. Mas como do Deleite o Santareno Estava no país, ordena Próteo Que a Astucia dali sacar o fasa, E á Cidade o conduza aonde a trama Para o pobre cair armar pertende.
Entre os longos Estados da Mentira Infame Imperatris da maior parte Da terráquea mole, junto ás fraldas D'uma verde colina alcantilada, Sobre um campo espasozo, plano, ameno A que regaõ d'um rio as mansas aguas, A galante Cidade encantadora Do vaidozo Deleite está plantada, A pálida Doensa, os Desprazeres, Os Remorsos crueis, a orrivel Morte O cume senhoreiaõ do alto monte. Mas o Engano traidor, c'um tolde espêso Tudo isto ávido encobre á gran Cidade. Nela tudo he prazer, tudo he descanso. O povo abitador ao ocio dado Só cuida em divertirse: o Baile, o Jogo, Os Cantos, a Luxuria, os Boms-bocados Aqui abítaõ ledos: pelas ruas Amplas Satisfasoins andaõ jirando Ministros de seu Rei: seu Rei parese, C'o as fraudolentas côres que a Mentira Arteira sobre modo o tem pintado, Um rapás mui lousaõ de afavel jesto.
Aqui de toda a parte os povos correm De seus serios deveres deslembrados A pedir a este Rei, quais seus dezejos, Tais as Satisfasoins, que outorga facil. Aqui a avía vindo o Santareno, E a meiga sua Espoza a Santarena, A pasar algums dias satisfeito Do fim da grande asaõ com que ultimando A mais árdua vitoria felismente, Tinha a um nome de impávida memoria Por entre o ferro, e o fogo alcanse dado.
Mas a doloza Astucia que naõ sabe Desvelada perder monsaõ de efeito, Por Próteo instigada, em continente As cambiantes azas solta aos ares, Dá nele d'improvizo, e asim o ataca: Dos remorsos se val acuzadores; E por uma maneira extravagante De seu alto saber somente propria, C'o as cores da razaõ na triste ideia Seu vil procedimento lhe debuxa. Faslhe ver com a mesma consciencia Como he mais justo que um Eroi constante, Que as desgrasas tratou de bagatela, Em as prosperidades naõ se infune. Que naõ dê que falar ao povo rude, Que murmurante na Cidade o acuza Pelo ver aos prazeres taõ sensivel. Que deve a sua caza retirarse, Tirar do vencimento util proveito, Naõ confiarse em si, porque inda as Aguas Estancado naõ tem as forsas vastas. Aqui do astuto Anibal traslhe á mente E do Magno Pompeo exemplos vivos, Que ja devem fazelo escarmentado.
Em fim estas solicitas lembransas De tal sorte do Eroi fervelhaõ n'alma, Que em si caindo parte rezoluto.