Versos Portuguese Frei Caneca Não posso contar meus males,

Portuguese poem

Não posso contar meus males,

by (1779–1825)

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Não posso contar meus males, Nem a mim mesmo em segredo É tão cruel o meu fado, Que até de mim tenho medo.

GLOSA

Dos homens sendo a paixão Incêndio voraz no peito, Sempre tem funesto efeito, Se não rebenta o vulcão. Eis porque, meu coração, Pouco falta, que me estales; Porque nos montes, nos vales, Em deserto, ou povoado, Não posso soltar um brado, Não posso contar meus males.

Horrenda sorte, e funesta, Escasso fado mofino, Até me roubas, malino, O alívio que me resta! Tudo que sinto me atesta Que os do Cocyto ainda excedo; Porque não tendo eles medo De contra Deus blasfemar, Não posso de mim falar; Que até de mim tenho medo.

Ver o pólo negro arder Em raios abrasadores; Feros Notos berradores Dos montes cedros varrer; Todo o mundo estremecer, Dos trovões ao rouco brado; Da terra o centro rasgado Nações inteiras sorvendo, Quanto ver isto é horrendo! É tão cruel o meu fado.

O peito d'antes sereno Centro de amor e ternura, Agora é morada escura De males mil, com que peno. Vós p'ra quem um fado ameno Aponta com áureo dedo, Fugi de mim, porque cedo Mudar-se vereis a sorte; Pois o meu mal é tão forte, Que até de mim tenho medo.