Portuguese poem
Amigo Senhor José
by Gregório de Matos (1636–1696)
Amigo Senhor José, não me fareis uma obra; porque se a graça vos sobra, me fazeis graça, e mercê: fazei-me uma obra, em que honra me deis aos almudes, e se em vossos alaúdes, que Apolo vos temperou, não cabe o pouco, que eu sou, caberão vossas virtudes.
Fazei-me uma obra, enquanto a Musa se me melhora, que eu prometo desde agora pagar-vos tanto por tanto: que como Deus é bom Santo, e não há ovo sem gema, sereis do meu plectro o tema, porque, a quem me faz um verso, não serei eu tão perverso, que lhe não faça um poema.
Saiam esses resplandores essas luzes rutilantes, rubis, pérolas, diamantes, cravos, açucenas, flores: saiam da Musa os primores, que há hortelão da poesia, que gasta em menos de um dia de flores um milenário, e há Poeta Lapidário gastador da pedraria.
Eu quatro versos fazendo não me meto em gasto tal, nem posso chamar cristal, a mão, que humana estou vendo: aos olhos, que ao que eu entendo, são de sangue dous pedaços, não chamo diamantes baços, porque os não tenho por tais, que há Poetas Liberais, e os meus são versos escassos.
Vós sois o Deus da poesia, que sobre o vosso Pegaso andais mudando o Parnaso neste monte da Bahia: nos ensina aos praticantes tão graciosos consoantes, que vos juro a Jesu Cristo, que em quantos versos hei visto, não vi versos semelhantes.
Sois Poeta natural, e tendes sempre a mão cheia não só na Aganipe a veia, mas na veia um mineral: correm por um manancial da vossa boca Aretusas, e as nove Musas obtusas de ver o vosso partolo, em vez de Musas de Apolo, querem ser as vossas Musas.