Portuguese poem
Victor, meu Padre Latino
by Gregório de Matos (1636–1696)
Victor, meu Padre Latino, que só vós sabeis latim, que agora se soube enfim, para um breve tão divino: era num dia mofino de chuva, que as canas rega, eis a patente aqui chega, e eu por milagre o suspeito na Igreja Latina feito, para se pregar na grega.
Os sinos se repicaram de seu moto natural, porque o Padre Provincial, e outros Padres lhe ordenaram: os mais Frades se abalaram a lhe dar obediência, e eu em tanta complacência, por não faltar ao primor, dizia a um Victor Prior, Victor, vossa Reverência.
Estava aqui retraído o Doutor Gregório, e vendo um breve tão reverendo ficou co queixo caído: mas tornando em seu sentido de galhofa perenal, que não vi patente igual, disse: e é cousa patente, que se a patente não mente, é obra de pedra, e cal.
Victor, Victor se dizia, e em prazer tão repentino, sendo os vivas ao latino soavam a ingresia: era tanta a fradaria, que nesta casa Carmela não cabia refestela, mas recolheram-se enfim cada qual ao seu celim, e eu fiquei na minha cela.