Versos Portuguese Gregório de Matos Veio ao Espírito Santo

Portuguese poem

Veio ao Espírito Santo

by (1636–1696)

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Veio ao Espírito Santo da Ilha da Madeira Alz. um Escudeiro Gonçalves mais pobretão, que outro tanto: e topando a cada canto as Tapuias do lugar havendo uma de tomar para a bainha da espada, tomou Vitória agradada, que então lhe soube agradar.

A tal era uma Tapuia grossa como uma jibóia, que roncava de tipóia, e manducava de cuia: tocando ela a Aleluia, tirava ele a culumbrina com tal estrago, e ruína, que chegando a conjuncão lhe encaixou a opilação por entre as vias da urina.

Pariu a seu tempo um cuco, um monstro (digo) inumano, que no bico era tucano e no sangue mamaluco: mas não tendo bazaruco, com que faça o batizado lhe assistiu sem ser rogado um troço de fidalguia pedestre cavalaria toda de beiço furado.

O Cura, que não curou de buscar no Calendário nome de Santo ordinário, por Antônio o batizou: tanto o colonim mamou, e tais forças tomou, que antes de se pôr de pé, e antes de estar já de vez, não falava o português, mas dizia o seu cobé.

Cansado de ver a Avoa co'as cuias à dependura, tratou de buscar ventura, e embarcou numa canoa: vindo aportar a Lisboa, presumiu de fidalguia, cuidou, que era outra Bahia, onde basta a presunção para fazer-se a um cristão muchíssima cortesia.

Casou com uma rascoa, que por ele ardia em chamas, e era criada das Damas da Rainha de Lisboa: era uma grande pessoa, porque tinha um cartapácio, onde estudava de espácio todo o primor cortesão, que até um sujo esfregão cheira a primor em Palácio.

Nasceu deste matrimônio um Anjo, digo, um Marmanjo, que era no simples um Anjo, e no maligno um demônio: deram-lhe por nome Antônio; oh se o Santo tal cuidara! creio eu, que se irritara o grande Português tanto, que deixara de ser Santo, e o nome lhe não sujara.

Este pois por exaltar-se veio reger a Bahia: que bom governo faria, quem não sabe governar-se! se ele quisera enforcar-se pelos que enforcar fazia, que bom dia nos daria! mas ele tão mal se salva, que quando dava a mão alva então tomava o bom dia.

O Ministro há de ser são, justo, e não desobrigado, há de ter ódio ao pecado, e ao pecador compaixão: que se tem má propensão, faz justiça, mas com vício, e se maior malefício tem, e pode condenar-me, livre-me Deus de julgar-me oficial do meu ofício.

Que, porque furto, o que coma, me enforquem, pode passar, mas que me mande enforcar a bengala de um Sodoma! quem sofrerá, que Mafoma me queime por mau cristão, vendo, que Mafoma é cão, velhaco, e de suja alparca, e o mais torpe heresiarca, que houve entre os filhos de Adão.

Quem na terra sofreria, que o fedor de um ataúde com bioco de virtude disfarçasse a Sodomia? e de feito em cada dia desse ao povo um enforcado, e que de puro malvado desse esse dia um banquete, e alegrasse o seu bofete com bom vinho, e bom bocado?

O bem, que os mais bens encerra, e as glórias todas contém, é reinar, quem reina bem, pois figura a Deus na terra: eu cuido, que o mundo erra nesta alta reputação, que se o Rei erra uma ação, paga a seu alto atributo um tristíssimo tributo, e misérrima pensão.

O Príncipe soberano bom cristão temente a Deus, se o não socorrem aos céus, pensões paga ao ser humano: está sujeito ao tirano, que adulando ambicioso é áspide venenoso, que achacando-lhe os sentidos, turbado o deixa de ouvidos, de olhos o deixa ludoso.

Se fosse El-Rei informado, de quem o Tucano era, nunca à Bahia viera governar um povo honrado: mas foi El-Rei enganado, e eu com o povo o paguei, que é já costume, e já lei dos reinos sem intervalo, que pague o triste vassalo os desacertos de um Rei.

Pagamos, que um figurilha corcova de canastrão com nariz de rebecão em cara de bandurrilha, descompusesse a quadrilha dos homens mais bem nascidos, e que dos mal procedidos tal estimação fizesse, que honras, e postos lhes desse por lhe encherem os ouvidos.

Pagamos ver esta Hiena, que com a voz nos engana, pois fala como putana, e como fera condena: que uma terra tão amena, tão fértil, e fão fecunda a tornasse tão imunda falta de saúde, e pão; mas foi força, que tal mão peste, e fome nos infunda.

Pagamos que um homem bronco racional como um calhau, mamaluco em quarto grau, e maligno desde o tronco: apenas se dá um ronco, em briga apenas se fala, quando os sargentos a escala prendem com descortesia aos honrados na enxovia, todo o patifão na sala.

Pagamos, que um Sodomita, porque o seu vício dissesse, todo o homem aborrecesse, que com mulheres coabita: e porque ninguém lhe quita ser um vigário-geral com pretexto paternal, aos filhos, e aos criados tenha sempre aferrolhados para o pecado mortal.

Pagamos, que o tal jumento isento de mãos guadunhas não furtasse pelas unhas, senão por consentimento: e que os quatro vezes cento, que se vieram trazer ao seu capitão mulher, porque o pão suba mais dez, não foi furto, que ele fez, mas deu jeito a se fazer.

Pagamos ver o Prelado, que se peca, é de prudente, dos serventes de um agente descortesmente ultrajado: o sobrinho amortalhado com tão fidalgos brasões pela Puta dos calções, que fiado em ser valido fez do sangue esclarecido tão lastimosos borrões.

Pagamos com dor interna, que nos passos da Paixão tão devoto é da prisão, que quer levar a lenterna: se entende, que a glória eterna prendendo há de merecer, fora melhor entender, que o céu lhe dá mais ganhado, não dormir-se co criado, que desvelar-se em prender.

Pagamos vê-lo esperar, e estar com expectativas de ser Conde das Maldivas por serviços de enforcar: e como mandou tirar um rol dos quatro maraus, que enforcou por vaganaus, cuidei (assim Deus me valha) que entre os Condes da baralha fosse ele o Conde de paus.

Porém Sua Majestade, Qual Príncipe Soberano, que não se indigna de humano sem dano da dignidade: conhecida esta verdade, que é verdade conhecida, fará justiça cumprida, para que se lhe agradeça, que o mau na própria cabeça traga a justiça aprendida.

E porque nós de antemão a seus favores mostremos, quanto lhos agradecemos, lhe agradecemos D. João: era justo, era razão, conforme o direito e lei, quando o Rei dá Juiz a Grei, outro em seu lugar dispor, que seja o Governador tão fidalgo como El-Rei.