Versos Portuguese Gregório de Matos Valha o diabo os cajus

Portuguese poem

Valha o diabo os cajus

by (1636–1696)

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Valha o diabo os cajus, que a todos tem degradado, uns vão caminho das ilhas, outros caminho dos campos. Assim me coube por sorte ir um dia degradado para a de Jorge de Sá, que é ilha dos mEus pecados. Saímos com vento em popa, mas no mais triste pangaio, que nasceu de embarcações, de que foi Eva a Nau Argos. Desembarcamos em terra, e querendo registar-nos com nossas cartas de guia, que nos deu o saibam quantos: Achamos deserta a ilha sem câmara, nem senado, que os cajus são restringentes, não houve câmara este ano. Tornamo-nos a embarcar no mesmo triste pangaio em demanda de outra ilha, em que o degredo compramos. Não pudemos tomar terra porque era o vento contrário, assoprava pelo olho, e era o tal olho o do rabo. Porque vento tão maldito, e tão despropositado só por tal olho saíra, para nos ir espeidando. Tomamos porto na pátria depois de tantos trabalhos, fomes, que em terra curtimos, sustos, que no mar tragamos. Fomos mui bem recebidos, porque o passado passado, e sobre os cargos da culpa nos deram logo outros cargos. Todos saímos com vara, como meirinhos do campo sobre os pobres dos cajus prendendo, e executando. Indo a eles uma tarde, prendemos quase um balaio, outros deixamos pendentes, que é o mesmo, que enforcados. Os maduros se prenderam, que era a ordem, que levamos, mas os verdes se enforcaram, por serem cajus velhacos. O Meirinho-mor do Reino, que é Custódio Nunes Daltro, não larga a vara, e os cajus andam como homiziados. Tem uns alcaides pequenos, que andam correndo esse campo, e vão ligeiros de pé por vir pesados de papo. Este castigo merece Cururupeba afamado, porque os engenhos não moem, e o rio é, quem paga o pato. Em se acabando os cajus, as varas vão co diabo, salvo formos meirinhar aos airus por esses campos.