Portuguese poem
Veio a Páscoa do Natal
by Gregório de Matos (1636–1696)
Veio a Páscoa do Natal, primeira, e segunda oitava, quando Araújo assentava, uma festa garrafal: mas a Cajaíba é tal, este monte tão mesquinho, que para um festim de alinho veio Araújo famoso, Paulinho com João Cardoso, Carvalho, e Falcão Marinho.
Só cinco em cinco rocins foi visto, que em meu sentido para o pasto andar corrido poucos bastam, se são ruins: mas não faltaram malsins, entre os quais foi mui notado este número apoucado: e eu tive os homens por loucos, pois bons são cavalos poucos para o pasto andar folgado.
O Araújo coitado, para que nada lhe sobre, andou sem freio, que ao pobre sempre lhe falta o bocado: mas por isso aventejado andou à outra parelha, mais que aos mais arnês brilhante, que Araújo é rocinante, que val muito pela ovelha.
João Cardoso à mourisca pela encolhida perneta, tanto mais lustra a gineta, quanto mais nela se arrisca: e bem que de todos trisca, porque com juízo, e brio nunca paga de vazio os altos, na refestela pagou de vazio a sela três vezes, ou quatro a fio.
Paulinho não há alcançá-lo: era da festa o enigma, e alguém a dizer se anima, que indo em mula, ia a cavalo: deu-lhe tão pequeno abalo o festim burlesco, e rude, que nunca obrigá-lo pude a fazer largas entradas, porque em verdes laranjadas era o Juiz da saúde.
O meu cavaleiro foi (por me dar maior regalo) Carvalho, que ia a cavalo, e dava passos de boi: mui prenhado "yo no voy, estos me lleban" dizia; tão pouco, e tão mal corria, que nem ele se correu, nem o pasto floresceu, mas sem florescer se ria.
O Marinho andou galhardo, tal, que teve desta vez o pasto por Aranguês, que quer sempre o dia pardo: como é Marinho bastardo, desprezou seu coração, gineta, e bastarda então: mas em osso o coitadinho nadava como um Marinho. voava como um Falcão.
Nas laranjadas folgou-se muito bem no meu sentir, ia Araújo a cair, e por não cair, deitou-se: caiu, porém levantou-se bizarro, e mui animoso, para que o povo invejoso veja em seu mesmo rencor, que se caiu pecador se levantou virtuoso.
João Cardoso não quis crer, que fora a queda leve, e dando uma volta breve, a foi medir co nariz: achou, que, o que se lhe diz, era mentira esbrugada, porque de uma laranjada quem vai desde a sela ao chão, achou pela medição, que era a queda mui pesada.
Bem do Marinho se riu, quando fez co'a terra escambos, porém sendo a terra d'ambos, o Marinho não caiu: o rocinante, que viu com as costelas quebradas Araújo às laranjadas, rindo não se pôde ter, e assim em vez de correr se espojou em carcajadas.
Inácio não me lembrou, que branco do sobressalto antes que entrasse no assalto coitadamente arribou: no princípio começou num cavalo inteiriçado, e vendo-se mal parado, não quis mais parar ali, e dando um homem por si, partindo o deixou soldado.
Depois houve laranjadas com todos os circunstantes, e o que eram laranjas antes, vi em risco de punhadas: com várias calamocadas saiu mais de algum mirão, e foi tal a confusão, que sendo o Falcão previsto, e corredor mui bem visto, hoje está cego o Falcão!