Portuguese poem
Vão-se as horas, cresce o dia
by Gregório de Matos (1636–1696)
Vão-se as horas, cresce o dia, meu tormento não se acaba; a noite chega a meus olhos, mas o alívio sempre tarda. Meu coração já de aflito não sofre tanta tardança: a cada instante suspiro, porque o teu rigor me mata. Meus sentidos elevados já não dão ascenso a nada, tu me negas tua vista, eu sem ti não sei, que faça. Em um pranto todo o dia não sossega, nem descansa este triste, minha vida, este pobre, minha mana. As meninas dos meus olhos já não vivem de esperança, porquanto o teu coração não se move, nem se abranda. Olha tu, que crueldade por ti padece minha alma, maltratar, a quem te quer, não querer, a quem te ama. Baste já, que mais não posso, não sejas, meu bem, ingrata, que por ti vivo morrendo, tu por mim não fazes nada. Ai meu bem, quem tal dissera! mas não quero dizer nada, tu, que me quiseste muito, me perdoa por tua alma.