Portuguese poem
Vá de retrato
by Gregório de Matos (1636–1696)
Vá de retrato por consoantes, que e eu sou Timantes de um nariz de tucano pés de Pato. Pelo cabelo começo a obra, que o tempo sobra para pintar a giba do camelo. Causa-me engulho o pêlo untado, que de molhado parece, que sai sempre de mergulho. Não pinto as faltas dos olhos baios, que versos raios nunca foram, senão a cousas altas. Mas a fachada da sobrancelha se me assemelha a uma negra vassoura esparramada. Nariz de embono com tal sacada, que entra na escada duas horas primeiro que seu dono. Nariz, que fala longe do rosto, pois na Sé posto na Praça manda pôr a guarda em ala. Membro de olfatos, mas tão quadrado, que um Rei coroado o pode ter por copa de cem pratos. Tão temerário é o tal nariz, que por um triz não ficou cantareira de um armário. Você perdoe, nariz nefando, que eu vou cortando, e inda fica nariz, em que se assoe. Ao pé da altura no naso oiteiro, tem o sendeiro, o que boca nasceu, e é rasgadura. Na gargantona membro do gosto está composto o órgão mais sutil da voz fanchona. Vamos à giba: mas eu que intento, se não sou vento para poder trepar lá tanto arriba? Sempre eu insisto, que no horizonte deste alto monte foi tentar o diabo A Jesu Cristo. Chamam-lhe autores, por falar fresco dorso burlesco, no qual fabricaverunt peccatores. E havendo apostas, se é homem, ou fera, se assentou, que era um caracol, que traz a casa às costas. De grande a riba, tanto se entona, que já blasona, que enjeitou ser canastra por ser giba. Ó pico alçado, quem lá subira, para que vira, se és Etna abrasador se Alpe nevado! Cousa pintada sempre uma cousa, pois onde pousa, sempre o vêem de bastão sempre de espada. Dos santos passos na bruta cinta uma cruz pinta a espada o pau da cruz, e eles os braços. Vamos voltando para a dianteira, que na traseira o cu vejo açoutado por nefando. Se bem se infere outro fracasso, porque em tal caso só se açouta, quem canta o miserere. Pois que seria, que eu vi vergões?; serão chupões, que o bruxo do Ferreira lhe daria. Seguem-se as pernas, sigam-se embora, porque eu por ora não me quero embarcar em tais cavernas. Se bem, que assento nos meus miolos que são dous rolos de tabaco já podre, e fedorento. Os pés são figas a mor grandeza, por cuja empresa tomaram tantos pés tantas cantigas. Velha coitada suja figura, na arquitetura da popa de Nau nova está entalhada. Boa viagem senhor Tucano, que para o ano vos espera a Bahia entre a bagagem.