Versos Portuguese Gregório de Matos Um Reino de tal valor

Portuguese poem

Um Reino de tal valor

by (1636–1696)

Listen in the reader

Um Reino de tal valor e de povo tão honrado é justo seja louvado desde o vassalo ao Snr. ainda que fraco orador a verdade hei de dizer, e cada qual recolher pode aquilo que lhe toca ainda que digna o provoca uma imitação Real Este é o bom governo de Portugal.

Um rei menino inocente sem compaixão nem piedade inimigo da verdade com adulação contente em uma sombra aparente tanto se enleva este Rei faltando do Reino a lei seguindo somente os vícios e com torpes exercícios o chegou a extremo tal Este é o bom governo de Portugal.

Para os povos bem reger Deus o pôs neste lugar não para o desgovernar, nem para o Reino perder; mas creio lhe fazem crer que é já virtude o pecar e o que deve, não pagar ter ambição, e avareza perseguindo a pobreza com tributo desigual Este é o bom governo de Portugal.

Pois um infante inumano insolente matador que sem ter de Deus temor vive bruto, e corre insano é o mais cruel tirano que neste Reino se há visto e que conhecendo isto o tolinho do irmão lhe não dê uma prisão para evitar tanto mal Este é o bom governo de Portugal.

Um neto de um carreiro hoje Príncipe da Igreja que alcança quanto deseja adulando lisonjeiro sanguessuga do dinheiro que se rouba da pobreza e que cheguem a tal grandeza quem ontem morrendo a fome sem ser visto nem ter nome hoje está já Cardeal Este é o bom governo de Portugal

Que haja um Conselho de Estado para mil resoluções e que em todas as ocasiões é sempre desacertado o parecer sempre errado foi de seus desacertos obrar com desconcertos e só para os bons intentos lhe segua os entendimentos o grão Demônio Infernal Este é o bom governo de Portugal.

Também o seu Secretário Dioguinho de Mendonça que anda por geringonça no espácio imaginário sempre aberto o candelário tem de mentiras, e enganos e que com caras de Janos vieram assolando o mundo eu juro que me confundo vendo o que um magano val Este é o bom governo de Portugal.

O Mercia das Mercês feito mosca atordoada que El-Rei não despacha nada diz a todo o português: todos conhecem que fez em breve tempo o palácio porque estuda mui de espácio na sua conveniência tendo piadosa aparência por exercício usual Este é o bom governo de Portugal.

E que no Conselho de Guerra os pobres dos pretendentes andam feitos pacientes rapando com os pés a terra e vendo que se desterra daqui o merecimento pelo injusto provimento dos postos que estes salvagens dão a Muchilas e Pajens dizem deste tribunal Este é o bom governo de Portugal.

A junta dos três estados que as rendas reais despende dando todo o que pertende vai pagar os meus pecados depois de ter bem curado os ossos na pertensão com uma e outra informação o mandam a um tesoureiro que lhe diz não tem dinheiro porque é lagarto fatal Este é o bom governo de Portugal.

Anexa a contadoria donde o Máximo é rezisto porque na junta o que é visto se remete a esta via: se falta aqui a valia para a boa informação acha-se uma dilação e uma dúvida no cabo que té o mesmo Diabo dirá por regra geral Este é o bom governo de Portugal.

O Conselho da Fazenda com dúvidas e demoras passam anos, dias e horas; os pobres nesta contenda em dilação estupenda três anos aqui andei que na verdade não sei como o posso referir não houve que deferir foi o despacho final Este é o bom governo de Portugal.

Um Desembargo do Paço composto de uns chinchilas que com roupas, e golilhas governam o Reino do espaço os corações têm de aço estes soberbos vilões pois de seus maus corações o mal a todos se espalha e preside a tal canalha o Duque de Cadaval Este é o bom governo de Portugal.

O Conselho de Ultramar donde preside um Diabo que assim lhe vai dado o cabo vendendo o que se há de dar: e espera de se salvar este assolador de gente tão soberbo e insolente que o Rio de Janeiro todos dizem que por dinheiro vendera este irracional Este é o bom governo de Portugal.

E que haja o Reino de ter a um Rei tão desumano que deixasse passar um ano sem o mandar socorrer e que ainda favorecer queiram ao governador que por fraco, e por traidor e por dar a S.Vicente desacreditasse a gente com uma perda universal Este é o bom governo de Portugal.

A Mesa da Consciência que consciência não tem donde todo o que ali vem faz perder a paciência com uma e outra diligência em qualquer inquirição traz arrastado um cristão que quer pôr a cruz de Cristo e se as cruzes não tem visto não se acha o avô paternal Este é o bom governo de Portugal.

Chegamos à Relação donde um Bispo é Regedor deixa de ser bom pastor para ser um mau ladrão: depois que empunhou o bastão com presunções de letrado tem muita gente enforcado atropelando os povos lhe quer dar costumes novos por seu destino brutal este é o bom governo de Portugal.

Armazéns e consulado que estão regendo o Fronteira com rezões de Borracheira responde a todo o honrado porque foi tão grão soldado no choque de Badajós nesta ocupação o pôs por seus serviços El-Rei e se há decreto, ordem, ou lei o repugna este animal Este é o bom governo de Portugal.

A junta que não tem pêlo do comércio, porque calva a deixou o Marialva por lhe arrancar o cabelo custou a vida ao Reselo, porque dizem nesta terra que para as casas do Serra dava dinheiro sem conto porque o queria ter pronto para o pecado carnal Este é o bom governo de Portugal.

Pois da Alfândega a descarga donde o provedor gentil todo o que vem do Brasil quer despenda com mão larga e se o não faz lhe alarga a descarga do Navio e os anos atrás no Rio carregados se perderam que como não concorreram concorreu-lhes o temporal Este é o bom governo de Portugal.

O estanque do Tabaco onde preside o Minas de ordenados e propinas mui bem se enche o velhaco ia-lhe chegando ao caco com um bastão estrangeiro e o fo. o bom cavaleiro deteve a cavalaria quando o inimigo fregia de xevara no asinal Este é o bom governo de Portugal.

A casa da Índia e coutos com todas as vedorias tesoureiros, chancelarias mui bem lhe vejo os pespontos eu lhe conheço estes pontos sem ter passado ao Norte que se governara a corte eu lhes vagara as enchentes pois destas vias correntes só eu lhe sei o canal Este é o bom governo de Portugal.

Da Câmara, e Senado que em obras, taxas, licenças deve com toda a presteza ter particular cuidado o governo é de estado e são as ruas da cidade monturos e porquidade e o que tem que vender o vende pelo que quer por ter seguro o costal Este é o bom governo de Portugal.

Os Ministros de justiça que nunca a fizeram direita porque a valia respeita pela puta, ou por cobiça o Demônio assim lhe atiça este fogo em seus ardores juíz e corregedores letrados e escrivães alcaides, e tabeliães todos vestem de um saial Este é o bom governo de Portugal.

Os Ministros da Igreja fradaria, e clerezia em todos há simonia tudo ambição, tudo inveja não há nenhum que não seja um perverso amancebado: outro para ser prelado a Roma manda dinheiro lhe venha um voto papal Este é o bom governo de Portugal.

Que queira El-Rei sustentar na praça e na campanha a guerra com traça e manha sem já lhe querer paguar e que hão de isto aturar os miseráveis soldados famintos e trabalhados, e ludíbrios padecendo, sempre de fome morrendo sem lhe darem um só real Este é o bom governo de Portugal.

E pode a guerra manter com palavras e enganos com quatro pobres maganos e sem lhes dar de comer bem pudera conhecer pois lhes dá tão pouco disto nos sucessos que tem visto depois que o cetro empunhou que vitória alcançou pois lhe tem ódio mortal Este é o bom governo de Portugal.

Os assentistas sem lei do Reino distribuidores que o trigo aos lavradores tomam com poder de El-Rei não lho paguando, eu o sei, para o tornar a vender deixando a fome morrer de El-Rei a cavalaria e a pobre infantaria e sofra isto um general Este é o bom governo de Portugal.

Quem as conquistas governa manda para desabonos uns pataratas fanchonos sem para nada prestar e que se hão de aumentar uns redicolhos sujeitos sem obras, ações nem feitos e se há fatal ocasião de ter a espada na mão a fuga lhe é cordial Este é o bom governo de Portugal.

Que a mais da Fidalguia que na soberba se enfronha nela se acha sem vergonha toda a má velhacaria: a franqueza, e a covardia se vê contra os castelhanos e para os pobres paisanos são uns tigres, uns leões e parecem uns supiões no proceder tão cabal Este é o bom governo de Portugal.

Que me dizeis das donzelas com escrúpulos honrados e tendo os pontos quebrados vos colhem nas esparrelas: e tendo três vezes parido enganam ao pobre marido com um virgo de trementina encaixando-se a menina cos enfiam com uma linha em possessão virginal Este é o bom governo de Portugal.

Também se vêem as casadas que porque querem brilhar trazer jóias e galear e serem mui regaladas as honras trazem manchadas porque o pobre do marido como não dá o vestido nem para a casa o sustento e diz que está muito isento de que o governe o casal Este é o bom governo de Portugal.

Que a pobre desconsolada da viúva sem marido o capelo tragua erguido e a cabeça apolvilhada mui cheirosa e perfumada segundo o mimo pertenda sem ter juro nom ter renda sempre a presunção é alta e se acaso o noivo falta não falta um provincial Este é o bom governo de Portugal.

Que venha todo o estrangeiro e cada um negociando o ouro e prata vão levando deixando-nos sem dinheiro e não há já conselheiro que seja homem de talento que apurado o entendimento algum remédio lhe aplique para que o Reino não fique exausto deste metal Este é o bom governo de Portugal.

Que andem por esta cidade roubando vários maraus e que estes vaganaus tenham a favor e amizade; sem ter honra, nem verdade furtando uma, e outra vez, achando o Conde, ou Marquês que dizem se presos vão que são de sua obrigação ao ministro principal Este é o bom governo de Portugal.

Pois uns atravessadores de trigo, azeite, ou de vinho que são por todo o caminho do povo uns assoladores porque da fome os rigores todos fazem padecer e que haja de se sofrer que qualquer bisbilhoteiro encorram (por ter dinheiro) em caso tão criminal Este é o bom governo de Portugal.

Toda a mais canalha vil mercadores vendilhões que estão ganhando milhões com empregar um ceitil tem toda a traça gentil para poderem roubar, podendo-se isto emendar com uns açoutes, ou galés porque assim em que lhe pes tenham menos cabedal Este é o bom governo de Portugal.

Os mais que aqui não refiro fiquem à eleição dos leitores que de tão graves oradores muito pouco me admiro: corra a fortuna seu giro com mil voltas e rodeios pois, que por tão vários meios vivem neste Reino insano o bom, e o mau, alto, e malo e como quer cada qual Este é o bom governo de Portugal.

Já não temos que esperar neste governo insolente mais que perecer a gente sem o bem nunca alcançar; só para Deus apelar pode o povo português e pedir-lhe desta vez que nos dê governo novo para que com ele o povo sigua no seu natural Este é o bom governo de Portugal.

Quando aquele Santo Rei que em Alcácer foi vencido pelejando inavertido contra o povo de Muley por exaltar de Xpo. a lei sair por divino acerto donde está o encoberto, com verdade e com razão diz, a nossa nação tendo um cetro imperial Este é o bom governo de Portugal.