Portuguese poem
Um Branco muito encolhido
by Gregório de Matos (1636–1696)
Um Branco muito encolhido, um Mulato muito ousado, um Branco todo coitado, um canaz todo atrevido: o saber muito abatido, a ignorância, e ignorante mui ufano, e mui farfante sem pena, ou contradição: milagres do Brasil são.
Que um Cão revestido em Padre por culpa da Santa Sé seja tão ousado, que contra um Branco ousado ladre: e que esta ousadia quadre ao Bispo, ao Governador, ao Cortesão, ao Senhor, tendo naus no Maranhão: milagres do Brasil são.
Se a este podengo asneiro o Pai o alvanece já, a Mãe lhe lembre, que está roendo em um tamoeiro: que importa um branco cueiro, se o cu é tão denegrido! mas se no misto sentido se lhe esconde a negridão: milagres do Brasil são.
Prega o Perro frandulário, e como a licença o cega, cuida, que em púlpito prega, e ladra num campanário: vão ouvi-lo de ordinário Tios, e Tias do Congo, e se suando o mondongo eles só gabos lhe dão: milagres do Brasil são.
Que há de pregar o cachorro, sendo uma vil criatura, se não sabe da escritura mais que aquela, que o pôs forro? quem lhe dá ajuda, e socorro, são quatro sermões antigos, que lhe vão dando os amigos, e se amigos tem um cão: milagres do Brasil são.
Um cão é o timbre maior da Ordem predicatória, mas não acho em toda história, que o cão fosse pregador: se nunca falta um Senhor, que lhe alcance esta licença a Lourenço por Lourença, que as Pardas tudo farão: milagres do Brasil são.
Já em versos quer dar penada, e porque o gênio desbrocha, como cão a troche-mocha mete unha e dá dentada: o Perro não sabe nada, e se com pouca vergonha tudo abate, é, porque sonha, que sabe alguma questão: milagres do Brasil são.
Do Perro afirmam Doutores, que fez uma apologia ao Mestre da poesia, outra ao sol dos Pregadores: se da lua aos resplandores late um cão a noite inteira e ela seguindo a carreira luz sem mais ostentação: milagres do Brasil são.
Que vos direi do Mulato, que vos não tenha já dito, se será amanhã delito falar dele sem recato: não faltará um mentecapto, que como vilão de encerro sinta, que dêem no seu perro, e se porta como um cão: milagres do Brasil são.
Imaginais, que o insensato do canzarrão fala tanto, porque sabe tanto, ou quanto, não, senão porque é mulato: ter sangue de carrapato ter estoraque de congo cheirar-lhe a roupa a mondongo é cifra de perfeição: milagres do Brasil são.