Versos Portuguese Gregório de Matos Tornaram-se a emborrachar

Portuguese poem

Tornaram-se a emborrachar

by (1636–1696)

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Tornaram-se a emborrachar as Mulatas da contenda, elas não tomam emenda, pois eu não me hei de emendar: o uso de celebrar àquela Santa, e a esta, com uma, e com outra festa não é devoção inteira, é papança, é borracheira dar de cu, cair de testa.

Bebeu Pelica, um almude, e não faltou, quem notasse, que mil saúdes tragasse; e ficasse sem saúde: caiu como em ataúde, sendo mortalha as anáguas, e eu entrei num mar de mágoas vendo a casaca, que era finíssima primavera, ficar chamalote d'águas.

Vomitou toda a casaca, e as Mulatas desconvinham que umas por vômito o tinham outras o tinham por caca: levou sobre isto matraca entre riso, e murmurinho, e a carinha com focinho lhe armou de grande altivez, mas resvelando-lhe os pés nadou em mares de vinho.

Angelinha aquela posta manjuba de palafréns, jogando fortes vaivéns ao vomito estava posta: com máscara de lagosta ora arrotava, ora impava; tomando puxos estava até que a hora chegou, não pariu, mas vomitou, porque tudo então trocava.

A Filha da Mangalaça de cuxambre tão maldito indo a parir; o Hermanito viu que o parto era vinhaça: chorou tão grande desgraça a triste da Macotinha, vendo, que a sua Madrinha ao botar o tal monstrinho parira como com vinho, porém não como convinha.

Anastácia a dos corais, que fornicando a gandaia para botar uma saia mete sete oficiais: bebeu tanto mais que as mais borrachas desta folia que cada qual lhe dizia que os oficiais chamava quando uma saia botava, chamasse, quando bebia.

Brazia, que a meu entender por bonita, e por galharda excedia a toda a Parda em cara, como em beber: depois de muito comer bebia com tanto afinco, que dando às demais um trinco, constou, que de seis frasqueiras mui cheias, e muito inteiras só ela bebera as cinco.

Helena, o cu de borralho, asmática, porém gorda, se ensopou como uma torda na sorda de vinho, e alho: tiveram grande trabalho as mais em a levantar, sem poder-se averiguar, se era odre, ou se penedo, e estando neste segredo ela o veio a vomitar.

A Agueda do Michelo, que tampouco se recata, nem merece ser Sapata, que entre todas é chinelo: assentada no tinelo dava aos sorvos tal carreira, que disse uma companheira, que a tirassem com presteza, por não haver em tal mesa azeitona sapateira.

Tomou a Garça no ar a Sapata incontinenti, e indo arreganhar-lhe o dente, não teve, que arreganhar: porém por se desquitar foi-se bailar o cãozinho, e como sobre o moinho levou tantas embigadas, deu em sair às tornadas a puro vômito o vinho.

Ninguém com Marta Soares quer trocar odre por odre, porque de podre, e mais podre não há distinção de azares: os copos de vinho a pares e aos nones a água bebia, que Deus para ela não cria água de rios, nem fontes, e havendo de andar por pontes, pelas de vinho andaria.

Vem Luzia sacrifício Juíza de refestela Agrela, que já não grela, por ser puta d'abinitio deu um jantar, que era vício rodava o Santos licor, e a negra serva do amor gritava com saia verde, aqui-d'El-Rei, que se perde a roupa de meu Senhor.

Assim pois se embebedaram a Mestiça, e a Mulata, todos tomaram a gata, só as Gatas não tomaram: bem fizeram, bem andararn em não irem à função: porque se me caem na mão, (como as outras que beberam) então viram, e souberam que sou para um gato, um cão.

A Gaguinha celebrada se afastou desta folia, dizendo que não queria com Marinículas nada: entendida, e engraçada respondeu, por vida minha, por saber que não convinha, que a vinhaça moscatel graduasse em Bacharel quem fora sempre Gaguinha.

Inácia, chamada Ilhoa para cada beiçarrão não bastava um canjirão com sopas de pão, e broa: bebeu vinho de Lisboa, bebeu do Porto, e Canárias, e vendo, que em copas várias outras o bebem do Beja, disse picada de inveja, ó Virgem das Candelárias!

A Surda, que gaga é, escutando estas plegárias da Virgem das Candelárias, chamou a de Nazaré: que licor é este, que converte esta mulatinha? bendita seja esta vinha, que deu tão santo licor, que para dar-lhe o louvor se esgotou a ladainha.

Acabado o tal banquete sem mais, nem mais dilação foi-se um, e outro putão, atrás do seu pontalete: deixararn saia, e traquete, dentro na casa fechada; e lá pela madrugada, veio a negra da Juíza e não achando a camisa gritou que estava roubada.

Voto solene fizeram ouvindo da negra os brados dizendo foram pecados, que na festa cometeram: porque a virgem a quem disseram, que aquela festa faziam, lhe ouviram, quando bebiam dizer a senhora então; que não se servia, não, do modo com que serviam.

Elas já em seu juízo (se de seu juízo têm) dizem, que o ano que vem haverá festa de siso: que hão de olhar seu perjuízo, sua honra, e opinião; de putaria, isso não, mas, eu por certas seqüelas não me ficarei mais nelas nem na sua devoção.