Portuguese poem
Toda a cidade derrota
by Gregório de Matos (1636–1696)
Toda a cidade derrota esta fome universal, uns dão a culpa total à Câmara, outros à frota: a frota tudo abarrota dentro nos escotilhões a carne, o peixe, os feijões, e se a Câmara olha, e ri, porque anda farta até aqui, é cousa, que me não toca; Ponto em boca.
Se dizem, que o Marinheiro nos precede a toda a Lei, porque é serviço d'EI-Rei, concedo, que está primeiro: mas tenho por mais inteiro o conselho, que reparte com igual mão, igual arte por todos, jantar, e ceia: mas frota com tripa cheia, e povo com pança oca! Ponto em boca.
A fome me tem já mudo, que é muda a boca esfaimada; mas se a frota não traz nada, por que razão leva tudo? que o Povo por ser sisudo largue o ouro, e largue a prata a uma frota patarata, que entrando co’a vela cheia, o lastro que traz de areia, por lastro de açúcar troca! Ponto em boca.
Se quando vem para cá, nenhum frete vem ganhar, quando para lá tornar, o mesmo não ganhará: quem o açúcar lhe dá, perde a caixa, e paga o frete, porque o ano não promete mais negócio, que perder o frete, por se dever, a caixa, porque se choca: Ponto em boca.
Eles tanto em seu abrigo, e o povo todo faminto, ele chora, e eu não minto, se chorando vo-lo digo: tem-me cortado o embigo este nosso General, por isso de tanto mal lhe não ponho alguma culpa; mas se merece desculpa o respeito, a que provoca, Ponto em boca.
Com justiça pois me torno à Câmara Nó Senhora, que pois me trespassa agora, agora leve o retorno: praza a Deus, que o caldo morno, que a mim me fazem cear da má vaca do jantar por falta do bom pescado lhe seja em cristéis lançado; mas se a saúde lhes toca: Ponto em boca.