Versos Portuguese Gregório de Matos Tem Lourenço boa a taca

Portuguese poem

Tem Lourenço boa a taca

by (1636–1696)

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Tem Lourenço boa a taca, fomos tourear ao pasto, e depois de tanto gasto o tourinho era uma vaca Lourenço na sombra opaca de um pé de limões grosseiro, eis a vaca pelo cheiro deu com ele, e ele então por não morrer na prisão arrombou o Limoeiro.

Tomou da praia o retorno, porque o morrer melhor é na reponta da maré do que na ponta de um corno: eu com notável sojorno numa capoeira estava, vendo, em que o caso parava, e a vaca com seu focinho me tratou como a ratinho; pois qual gato me miava.

Temi logo a malquerença da vaca tão marralheira, e o medo me deu em reira, que é melhor do que em corrença: rompi pela mata densa, e dei com meu envoltório de um vale no território, tomando por meu sossego, não las de Villa Diego, mas as de Vila Gregório.

Subi num monte comprido, que do vale é Polifemo, que quando uma vaca temo, subo mais do que um valido: vim à casa espavorido, achei Lourenço pasmado, mudo, e desassisado, e eu disse: se escapo, vaya, que quem fugiu pela praia, força é que esteja areado.

Deu-se-nos grande matraca, e com ser dia de peixe, sem que a consciência se queixe, todos gostamos da vaca: o Padre aguçou a faca, e afeiçoou um bordão, e tais ralhos disse então, que me convidou enfim para diante de mim dar na vaca um bofetão.

Mas eu não tornei ao mato, e ao Padre, que me chamava, respondi, que não gostava de vaca, senão no prato: e terei por insensato, a quem com pau, ou com faca, brigar com rês tão velhaca a quem razão não convence, nem terá prêmio, quem vence um touro, se o touro é vaca.

Custódio, que é prudente, pacífico, e sossegado, topou na costa co gado, e entre ele a vaca nocente: e em se pondo frente a frente a vaquinha, que o aguarda, e em dar carreiras não tarda, disparou como uma seta, com que lhe deu a vaqueta mais susto, que uma espingarda.

Tomou o monte de um pulo, e deu consigo no vale, sem dar jeito, a que o iguale a ligeireza de um mulo: mas o meu Mestiço fulo o emparelhou no correr donde veio a suceder, que Custódio um pé retroce, sendo pé, que se não troce, quando o dono o há mister.

A vaca é terror da aldeia, pois faz armada de sanha praça de armas a montanha, e a praça veiga de areia: todo o mundo se receia de inimiga tão comua, porque armada a meia-lua parece pelo cruel talvez Fatimá de Argel, talvez de Salé Gazua.

Não vi vaca tão ousada de mais brio, e fantesia, pois traz toda a freguesia corrida, e envergonhada: murmura a gente pasmada, que uma vaca parideira nos pusesse em tal fraqueira, e eu tal medo lhe concebo, que, quando o leite lhe bebo, me dá logo em caganeira.

Senhor Estêvão, que é dono da rês, que o branco divisa, já que lhe deu a camisa, faça-a mansa como um sono: e se não em alto tono, quando a vaca se remangue, tirei morto ao pé de um mangue, que se trata de a manter para o leite lhe beber, isso é beber-nos o sangue.

O Senhor Domingos Borges, que é sujeito de feição, se resistir seu Irmão, responda-lhe logo: alforjes: e tu, vaca, não me forjes outra traição mais precisa, a passada passe em risa, mas se vens noutra ocasião a furar-me o casacão, hei de rasgar-te a camisa.