Portuguese poem
Suspiros, que pertendeis
by Gregório de Matos (1636–1696)
Suspiros, que pertendeis Com tanta despesa de ais, Se quando um alívio achais, todo um segredo rompeis?
Não vedes, que a opinião sente o segredo rompido, quando no alívio adquirido Consta a sua perdição?
Não vedes, que se acompanha o desafogo do peito, mais se perde no respeito, do que no alívio se ganha?
Não vedes, que o suspirar diminui o sentimento, usurpando ao rendimento tudo, quanto dais ao ar?
Mas direis, que uma tristeza publica a sua desgraça, porque o silêncio não faça inútil sua fineza.
Direis bem, que o padecer da beleza é pundonor, e guardar segredo à dor será agravar seu poder.
Eia, pois, coração louco, suspirai, dai vento ao vento, que tão grande sentimento não periga com tão pouco.
Quem disser, que suspirais por dar à dor desafogo, dizei-lhe, que tanto fogo ao vento se acende mais.
Não caleis, suspiros tristes, que importa pouco o segredo e jamais me vereis ledo, como algum tempo me vistes.