Portuguese poem
Tanta virtude excelente
by Gregório de Matos (1636–1696)
Tanta virtude excelente de animoso, e de alentado, de valeroso soldado, e de cortesão valente, viu o mundo, e soube a gente, que inda que em santo podia transformar-se a Senhoria, o Conde o não conseguiu, porque de noite caiu, e o Santo cai no seu dia.
Se o Conde caiu de noite, como o teremos por Santo, quando a queda um tanto, ou quanto, teve do divino açoite: quis Deus, que o Conde se afoite, porque visse o bom Soldado, que o Conde de puro honrado quis, que o visse a própria terra, quanto arrojado na guerra, na paz tão precipitado.
Ícaro da nossa guerra ares corta o Conde só, Ícaro caiu no Pó, e o Conde caiu na terra: se, porque o rio o enterra, o nome lhe ficou dado de Ícaro ter sepultado: assim porque a terra dura deu ao Conde sepultura, ficou a terra um condado.
De cera, e pluma se val Ícaro para viver, e o Conde para morrer valeu-se do natural: quanto a força artificial da natureza é sobrada fica a do Conde adiantada, porque Ícaro quando bóia faz tragédia de tramóia, e o Conde de capa, e espada.
Tinha o Conde de morrer; todo o mortal nisto pára, e se ele se não matara, quem lho havia de fazer? fez bem o Conde a meu ver, quando ao jardim se arrojou, e entre as flores expirou: vento é a vida em rigor, e como o Conde era flor, entre as flores acabou.
Se ignorou alguns sentidos, porque tanto mal se urdiu, era valido, e caiu, que o cair é dos validos: tão certos são, e sabidos no monte, no lar, na praça estes reveses da graça, que é já dos Palácios lei, que quem da graça d’EI-Rei cai, cai da sua desgraça.