Portuguese poem
Tempo, que tudo trasfegas
by Gregório de Matos (1636–1696)
Tempo, que tudo trasfegas, fazendo aos peludos calvos, e pelos tornar mais alvos até os bigodes esfregas: todas as caras congregas, e a cada uma pões mudas, tudo acabas, nada ajudas, ao rico pões em pobreza, ao pobre dás a riqueza, só para mim te não mudas.
Tu tens dado em mal querer-me, pois vejo, que dá em faltar-te tempo só para mudar-te, s e é para favorecer-me: por conservar-me, e manter-me no meu infeliz estado, até em mudar-te hás faltado, e estás tão constante agora, que para minha melhora de mudanças te hás mudado.
Tu, que esmaltas, e prateias tanta gadelha dourada, e tanta face encarnada descoras, turbas, e afeias: que sejas pincel, não creias, senão dias já passados; mas se esmaltes prateados branqueiam tantos cabelos, como, branqueando pêlos, não me branqueias cruzados?
Se corres tão apressado, como paraste comigo? corre outra vez, inimigo, que o teu curso é meu sagrado: corre para vir mudado, não pares por mal de um triste: porque, se pobre me viste, paraste há tantas auroras, bem de tão infaustas horas o teu relógio consiste.
O certo é, seres um caco, um ladrão da mocidade, por isso nesta cidade corre um tempo tão velhaco: farinha, açúcar, tabaco no teu tempo não se alcança, e por tua intemperança te culpa o Brasil inteiro, porque sempre és o primeiro móvel de qualquer mudança.
Não há já, quem te suporte; e quem armado te vê de fouce, e relógio, crê, que és o percussor da morte: vens adiante de sorte, e com tão fino artifício, que à morte forras o ofício; pois ao tempo de morrer, não tendo já que fazer, perde a morte o exercício.
Se o tempo consta de dias, que revolve o céu opaco, como tu, tempo velhaco, constas de velhacarias? não temas, que as carestias, que de ti se hão de escrever, te darão a aborrecer tanto as futuras idades, que, ouvindo as tuas maldades, a cara te hão de torcer.
Se, porque penas me dês, paras cruel, e inumano, o céu santo, e soberano te fará mover os pés: esse azul móvel, que vês, te fará ser tão corrente, que não parando entre a gente, preveja a Bahia inteira, que há de correr a carreira com pregão de delinqüente.