Versos Portuguese Gregório de Matos Um vendelhão baixo, e vil

Portuguese poem

Um vendelhão baixo, e vil

by (1636–1696)

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Um vendelhão baixo, e vil de cornos pôs uma tenda, e confiado, em que os venda, corre por todo o Brasil: para mim de tantos mil lhe mandei, que me guardasse, se verdade não falasse em sobrosso, e com sojorno: Um corno.

Para o Alcaide ladrão com despejo, e com temor, que na mão leva o Doutor, na barriga a Relação: indo à casa de um Sansão entra audaz, e confiado, e faz penhora no estado da mulher, e seu adornos: dois cornos.

Para o escrivão falsário, que sem chegar-lhe à pousada, dando a parte por citada, dá fé, e cobra o salário: e sendo o feito ordinário, como corre à revelia, sai a sentença num dia mais amarga que piornos: três cornos.

Para o Julgador Orate ignorante, e fanfarrão, que sendo Conde de Unhão, já quer ser Marquês de Unhate: e por qualquer dou-te, ou dá-te resolve do invés um feito e assola a torto, e direito a cidade, e seus contornos: quatro cornos.

Para o Judas Macabeu, que porque na tribo estriba, foi de Capitão a Escriba, e de Escriba a Fariseu: pois no ofício se meteu a efeito só de comer, sufrágios, que em vez de os ter, quer antes arder em fornos: cinco cornos.

Para o bêbado mestiço, e fidalgo atravessado, que tendo o pernil tostado, cuida, que é branco castiço: e de flatos enfermiço se ataca de jeribita, crendo, que os flatos lhe quita, quando os vomita em retornos: seis cornos.

Para o Cônego observante todo o dia. e toda a hora, cuja carne é pecadora das completas por diante: cara de disciplinante, queixadas de penitente, e qualquer jimbo corrente serve para seus subornos: sete cornos.

Para as Damas da Cidade Brancas, Mulatas, e Pretas, que com sortílegas tretas roubam toda a liberdade: e equivocando a verdade dizem, que são um feitiço, não o tendo em o cortiço tanto como caldos mornos: oito cornos.

Para o Frade confessor, que ouvindo um pecado horrendo se vai pasmado benzendo, fugindo do pecador: e sendo talvez pior do que eu, não quer absolver-me, talvez porque inveja ver-me com tão torpes desadornos: nove cornos.

Para o Pregador horrendo, que a Igreja esturgindo a gritos, nem ele entende os seus ditos, nem eu também os entendo: e a vida, que está vivendo, é lá por outra medida, e a mim me giza uma vida mais amarga, que piornos: dez cornos.

Para o Santo da Bahia, que murmura do meu verso, sendo ele tão perverso, que a saber fazer faria: e quando a minha Talia lhe chega às mãos, e ouvidos faz na cidade alaridos, e vai gostá-la aos contornos: mil cornos.