Versos Portuguese Guilherme Braga Vi

Portuguese poem

Vi

by (1845–1874)

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*O anáthema, fragmento do «Syllabus».-- Angustias d'uma alma piedosa*

«Malditos sejaes vós, Progresso e Liberdade! Gémeos filhos do Mal, irmão e irmã do Crime; Tu, que és um sacrilégio, abôrto da impiedade; Tu, que dás força á plebe e esmagas quem a opprime!

Vêde: por toda a parte as hydras do peccado Erguem altivo o collo, iradas contra nós, E o nosso bom cutello esconde-se embotado Na cova onde repousa o nosso extincto algoz!

Por vós andam na sombra, errantes, perseguidos Como as feras no matto, os reis d'origem pura; Aos ministros de Deus preferem-se os bandidos... E assim chamaes aurora á noite escura... escura!

Comvosco, onde assomaes, a tempestade assoma; Rebrame o vendaval no espaço onde rugis, --Negro sopro, que apaga as lampadas de Roma, E aviva ao mesmo tempo os fachos de Paris!

Erguendo para os céus a pavorosa fronte O anjo da Assolação atraz de vós caminha; Quando o incendio alumia a extrema do horisonte Sois vós que perpassaes n'essa abrazada linha!

E para que desmaie o fogo da heresia, O fogo a que se aquenta a sordida relé, Debalde sopra o clero á cinza inutil, fria, Aos ultimos carvões do extremo auto-da-fé!

Ó pavidos heroes da lugubre tragedia Que a historia do passado aos seculos ensina! Ó despotas feudaes da torva idade-media! Ó soffregos irmãos das aves de rapina!

Padres, em cuja mão fulgia a núa espada Co'as mil scintillações d'um raio abrazador, E em cujo ferreo peito a veste consagrada Tinha nodoas de sangue a macular-lhe o alvor!

Monges de frio aspecto e d'animo impassivel Que, a bem do novo Deus, f'rieis os crentes novos; Ó dérviches de Roma, a cuja voz terrivel, Como á voz de Jehovah, tremiam reis e povos!

Que é de vós? onde estaes? Que braço vos subjuga, Que, nem como um phantasma, a triste sombra ergueis, Ao vêr passar assim, na vergonhosa fuga, O clero envilecido, os infamados reis?

No carro do Progresso ostenta-se a gentalha, --A luctadora vil, que um louco orgulho inflamma, E, ao cruzar triumphante a arena da batalha, Faz que lhe sejam solio os estendaes da lama.

Da Liberdade aos pés rola, vilipendiada, Como um idolo torpe, a imagem de Jesus, E do eterno Voltaire a eterna gargalhada Persegue a Virgem-Mãe que chora aos pés da cruz!

Fervem inda no espaço os odios implacaveis De que innundára a terra uma sinistra ideia, --A ideia que do lodo exalta os miseraveis E inspira «Oitenta e nove»,--a tragica epopeia!

Para que espante os céus, para que o mundo aterre, Quantos éccos talvez de novo accordará, Fria como uma espada, a voz de Robespierre, Ardente como um raio, o grito de Marat?!

Esse tempo em que a plebe, os rôtos, os descalços, A ignobil multidão, potente em seu reinado, Tumultúa, a rugir, d'emtorno aos cadafalsos, Onde expia a Realeza as glorias do passado;

Esse tempo sinistro ha de voltar, e em breve! Cedo as vagas fataes d'immensa revol'ção, Como as ondas do Éri', massa d'espuma e neve, Passando sobre a terra, a terra assolarão!

Debalde o Vaticano affasta a sombra estranha Que peza sobre nós, de tanto horror transidos; Debalde irrompe a luz dos flancos da montanha Que é fulgido Sinái aos crentes perseguidos!

Fluctuam já sobre elle a tempestade e a morte: Véla-o, como um sudario, a nevoa sepulchral, E Roma julga ouvir, nos vendavaes do Norte, Das barbaras legiões a marcha triumphal!

Emquanto a voz d'um velho, em lagrymas banhada, Clama contra a revolta, obscura, su'terranea, Sem pejo se arremessa a Italia deshonrada Nos braços varonis dos povos da Germania...

Em vão, ó sacro asylo, em vão inda retumbas Co'a sussurrante voz das santas orações: Os servos do Senhor descem ás catacumbas; Acolhem-se do nada ás frias solidões!

Mas que m'importa a mim que o resto se acobarde, Se eu não cedo ao martyrio os fóros da opulencia? «É tarde!» disse alguem.--Não! inda não é tarde! Seja a lucta sem dó, sem tregoas, sem clemencia!

Os que são contra nós inspiram medo e asco, --Venenosos reptis á flôr d'um lodaçal... Ah! podesse eu punir,--punir, como o carrasco! Ah! podesse eu vencer,--vencer, como o chacal!

Podesses tu, risonha, eu placido e sereno, Approveitando o amor, o lubrico pretexto, Encher pelos festins as taças de veneno! Ah! fosses tu Vannoza... eu, Alexandre Sexto!»