Portuguese poem
O Bispo
by Guilherme Braga (1845–1874)
O symbolo da Fé, O largo calix d'oiro Do velho altar da Sé, Enche-o de vinho transparente e loiro!
Bebamos! Quem bebe acalma Todas as máguas que tem. Cá dentro, ás vezes, noss'alma Parece beber tambem.
Não sabes como eu abranjo Os mundos que tu não vês? Colla aos teus hombros d'archanjo As azas da Embriaguez!
Ai! verás como te elevas Nos sonhos que ella produz... Passarás da luz ás trevas! Irás das trevas á luz!
Ha de abrazar-te em desejos Que ella mesma apagará; Has de sentir muitos beijos Sem nunca vêr quem t'os dá!
Ora, a nudez, que enthusiasma, Pelo abysmo encobrirás, Fugindo como um phantasma Aos braços de Satanaz;
Ora, ante os olhos do Eterno, Rolarás sem um só véu, Tentando, em nome do inferno, A castidade do céu!
Ai! bebe, flôr do serralho, Como a rosa, a tua irmã, Bebe as perolas do orvalho De que se enfeita a manhã!
Molha os labios á vontade No santo vinho hespanhol: As gôtas d'essa humidade Hei de eu seccar, como o sol!
Quanto prazer se resume Nem tu calculas, talvez, No suavissimo perfume Do Madeira e do Gerez!
É justo que me acompanhe Tua alegria sem par: Venha o Champanhe! o Champanhe! Saltem as rolhas ao ar!
Canta, ó deusa, que me abraças Cheia d'indomito ardor! D'entre o tinido das taças Solte-se um canto d'amor!
Qu'importa o grito da plebe Que a miseria escravisou? Eu folgo; tu canta e bebe! És quem és: eu sou quem sou!
Dizem que por essas ruas Andam vagando, ao desdem, Descalças e quasi nuas, Umas crianças sem mãe;
Que, onde a miseria rebrame Contra a nossa ostentação, Avulta uma cousa infame Chamada prostituição;
Que a sombra é vasta e profunda Nos desherdados casaes, Que a espaços a chuva innunda E abalam os temporaes;
Que, entre a noite escura e triste, Por terem fome, uns atheus Perguntam se Deus existe, E, se existe, onde está Deus?;
Que uns velhos, a quem se deve Profiqua gloria sem fim, Dormem, cobertos de neve, Ás portas do meu jardim;
Que, sem tecto onde se acoite, Um bando de paes e mães Inveja, durante a noite, A casota dos meus cães;
Que a Justiça, em vis calvarios Onde é vergonha morrer, Crucifica os operarios Que já não tem que fazer!
Será, póde ser verdade... Mas, tão distante do céu, O archanjo da caridade Decerto que não sou eu!
Canta! Bebamos! Scintille Noss'alma d'amor jovial! Haja um quarto do Mabile No palacio episcopal!
Quando, nas lagens marmóreas D'igrejas, ditas christãs, Já se exaltaram as glorias E o nome das certezas,(1)
Qu'importa que n'estes paços, Longe do olhar de Jesus, Morra, na cruz de teus braços, Um sacerdote da Cruz?
Canta, como as filomelas! Canta, como os roixinoes, Á flôr, ao lago, ás estrellas Dos teus jardins hespanhoes!
Mas não cedes ao meu rôgo? Filha, em que estás a scismar?