Portuguese poem
I
by Guilherme Braga (1845–1874)
*Na cathedral.--Revelações d'um satyro*
No claro azul d'um frio céu d'inverno, Sobre a collina onde a cidade dorme, Destaca, ao longe, o escuro vulto enorme D'antiga cathedral; Fica-lhe ao lado a succursal do inferno, --Velho epigramma ao lugubre edificio, --Largo covil doirado, aberto ao vicio,-- O paço episcopal...
Bate o luar nos porticos escuros, Abrigo á noite de sinistras aves; Lá dentro, as altas, magestosas naves Envolve a solidão. Sobem, crescem mil sombras pelos muros, D'um bronzeo lampadario á luz distante, Sob as curvas da abobada ondulante Que estampa os arcos no marmoreo chão.
O côro é largo e bello. Ali se abriga, D'um capitel nos rendilhados folhos, Um satyro, que ri, piscando os olhos, Lascivo como Pan. Dizer parece á cathedral antiga: «Porque me tens aqui, mostras-te ufana? Pobre igreja catholica-romana! Pobre igreja christã!»
Diz com orgulho, gracejando, ao Christo: «Eu fico, a meu pezar, n'angustia absorto, Ao vêr-te assim crucificado e morto, Ó déspota dos meus! Não desejo ser Deus... se Deus é isto: --Um cadaver perpetuo exposto ao frio-- E, velho fauno desdentado, eu rio, Eu rio-me de ti!--de ti, que és Deus!
Vês alem, por detraz do lampadario, Um satanaz assoberbando um globo? Deitado aos pés de Deus, parece um bobo Deitado aos pés d'um rei. Ao vê-lo assim, tristonho e solitario, Tive dó d'aquell'alma taciturna, E, na mudez da escuridão nocturna, Com elle me liguei.
Vago rumor de vozes mal distinctas Nos guiou para os porticos do paço: Eu, sabendo que o bispo era um devasso, Previa a bacchanal... Escuta, ó Christo, escuta, embora sintas Chammejante de pejo o rosto frio, Tudo o que eu vi no lupanar sombrio, No infame lupanar sacerdotal: