Portuguese poem
Ao Povo Ingenuo
by Guilherme Braga (1845–1874)
Bem cedo, ó triste povo, ó pobre gente! Bem cedo eu te hei de vêr, em magua absorto, Ir, de joelhos, á capella ardente Beijar os santos pés ao bispo morto...
No pó, na cinza, ó povo, a fronte roja, Ao vêr no esquife o Patriarcha austero... Tu, que poisas na mão que te despoja Mil ósculos d'amor crente e sincero!
Se elle houvesse o «direito do mais forte» Arrastarias vergonhosa algema; Vivo, odiou-te: adóral-o na morte! Derradeira abjecção! baixesa extrema!
Quando has de tu deixar as vis doutrinas, As vis superstições dos tempos velhos, E fazer cathedraes das officinas, E procurar na Sciencia os Evangelhos?
Quando has de tu surgir calcando arminhos, Nos salões onde, altivos do seu nada, Ri a mitra da c'roa dos espinhos, E o sceptro inutil da prestante enxada?
Quando has de tu entrar na grande liça, E, saccudindo o teu grilhão desfeito, Dizer ao Padre: «Eu chamo-me a Justiça!» Dizer ao Rei: «Eu chamo-me o Direito!»?
Succeda á farda a blusa; o ganho á esmola; As armas do trabalho á carabina! Onde estava a prisão surja uma eschola, E um theatro onde estava a guilhotina!
Da liberdade atalayando o asylo, Sê magestoso e bom, sê grande e puro; Toma, nas rijas mãos, bravo e tranquillo, A sagrada bandeira do futuro!
É já longo o caminho do Calvario Que trilhas, sob a cruz, ha tantos annos!... Desfaz, quebra, estilhaça o teu rosario! Calca, assoberba, esmaga os teus tyrannos!
Porto, 12 de novembro de 1873.