Portuguese poem
O Grande Templo
by Guilherme de Azevedo (1839–1882)
Eu não trajo o burel do magro cenobita Nem me posso infligir crueis macerações; Mas não rio d'alguem que busca a paz bemdita No seio casto e bom das grandes solidões.
Bem sei que ha na montanha aromas penetrantes E certas vibrações que podem fazer mal; Mas se é preciso Deus, direi que é melhor antes Amal-o com fervor no templo universal!
Em quanto sobre o altar das serras azuladas Mil lampadas do céo derramam toda a luz, Nas velhas cathedraes, já meio arruinadas, O Tempo,—o grande verme!—até devora a cruz!
Depois é facil vêr, por entre os arabescos Que a arte sensual traçou com tanto amor, Ás vezes, o sorrir dos Satyros grotescos Pungindo cruelmente a face do Senhor.
Ou mais; podemos nós voar todos captivos Do sereno ideal, d'aquelle summo bem, Ao vermos tanta vez os Faunos mais lascivos Olhando de revez a virgem nossa mãe?!
E ainda mil traições: as musicas, as flôres Os lindos seraphins voando todos nús; Da sêda que se arrasta os languidos rumores Do incenso as espiraes; os turbilhões de luz!
Oh! visto haver de tudo; aromas e decotes, O vinho scintillante, a viva luz do gaz; Que a vossa rouca voz, pomposos sacerdotes, Não cante apenas Deus; que solte alguns hurrahs!
O fumo d'essa festa, a mim, pouco me assusta. Se eu quero alguma vez fugir do pó, voar, Eu tenho o val profundo ou a floresta augusta, As montanhas, os céos, e o bello, o vasto mar!
Da casta natureza ó templo gigantesco, Tu és mais amplo, sim; mais livre, muito mais! O meigo e doce olhar do Christo romanesco A multidão gentil não chama aos teus umbraes.