Portuguese poem
Graça Posthuma
by Guilherme de Azevedo (1839–1882)
Depois da tua morte eu heide ver se arranco, N'uma noite serena, ao teu berço final, Um producto mimoso;—um grande lyrio branco Da alvura do teu collo eburneo e divinal!
Aquella flôr suave, ó minha visão estherica, Debruçada gentil, na taça em que a puzer, Fazer-me-ha lembrar a graça cadaverica Do teu corpo franzino e ethereo de mulher!
E mesmo conterá, de certo, alguma cousa Do que me traz submisso e prezo ao teu olhar: —Teu corpo a pouco e pouco irá fugindo á louza Depois tornado em lyrio á terra hade voltar!—
E em longas noites, n'elle, eu beberei sosinho, Sonhando as convulsões d'uns lindos braços nús, A fragrancia que exhala a candidez do linho Em que hoje ondeias leve e onde os meus labios puz,
—Saudando a boa mãe que faz com que eu te gose Depois do verme vil teu seio polluir, Mais pura no frescor de tal metamorphose Do que eras a scismar, do que eras a sorrir!
Ó minha doce Ophelia! Os rapidos momentos Da vida, são crueis mas passam como um som! Um dia quando em fim dos velhos sedimentos Teu corpo renascer n'um lyrio immenso e bom,
Talvez que eu durma já tambem sob os matizes Das flôres, ao sorrir das mil germinações, Dando um pasto fecundo ás tuas sãas raizes Depois de te sagrar as ultimas canções!