Portuguese poem
Evocação
by Guilherme de Azevedo (1839–1882)
Levanta-te Romeu do tumulo em que dormes E vem sorrir de novo á boa, á eterna luz! De noite, ouço dizer que ha sombras desconformes E as noites do passado, oh, devem ser enormes Na atonia fatal das larvas e da cruz!
Conchega gentilmente ao peito carcomido Os restos do teu manto:—assim, que bem que estás!
Na terra hão de julgar-te um grande Aborrecido Que busca desdenhoso o centro do ruido Nas horas vis do tedio e das insonias más.
O mundo transformou-se; aquelle fundo abysmo Do antigo amor fatal, fechou-se d'uma vez, E tu filho gentil do velho romantismo, Tu vens achar dormindo o rude prozaismo No berço onde sonhava a doce candidez!
No entanto pódes crer; faz muito menos frio Á luz do novo sol; do gaz provocador; E o seculo apezar de gasto e doentio, Não pode já escutar o cantico sombrio Que fala de edeaes e cousas sem valor!
Em paz deixa dormir a terna Julieta Que aos ceos ainda por ti levanta as brancas mãos; E em quanto por mim corre a tetrica ampulheta, Da muza alegre e vil da torpe cançoneta Saudemos a nudez a par dos bons pagãos!
Nas praças, tu bem vês; a turba prazenteira Innunda-se na luz de mil constellacões! E os archanjos da rua assomam na poeira Que exhala o macadam, trazendo em cada olheira O astro creador das grandes sensações!
E quando a cotovia á estrella matutina Mandar a saudação, lá fora, em pleno céo, Romeu tu beijarás, que é tua eterna sina, A trança da belleza anemica e franzina Que entre os fumos da festa, a amar, adormeceu!