Portuguese poem
Ás Visões
by Guilherme de Azevedo (1839–1882)
Pois que visões! não cessa a rapida corrida E seja noite ou dia, Volteadoras crueis! vós sempre a toda a brida Na minha phantasia!
Parti chymeras vãs! archanjos ou madonnas, Parti, que o mando eu, Como um bando fatal de velhas amasonas Que o circo aborreceu!
Levae tudo comvosco: as settas mais a aljava; O angelico sorriso; E as azas d'escumilha em que eu voava Á noite, ao paraiso!
Eu quero, em fim, dormir; passar as noites gratas Sentindo-me feliz, No somno machinal dos velhos acrobatas Depois das farças vis!
Mais tarde hei de sorrir, ou escarnecer-me quasi, Lembrando-me—ó verdade!— Que onde eu suppunha aurora havia apenas gaze E uns traços d'alvaiade.
Perdão se vos insulto! oh, não, vós sois do empyreo, D'aquelle meigo azul, Que a todos tem sorrido: a Christo no martyrio, Na dôr, ao rei de Thule;
E quando vos apraz, nas azas transparentes, Mais alto ides por certo, Do que as deusas gentis, aerias, insolentes, Que vemos voar tão perto!
No entanto podeis crer ó lucidos fantasmas Que o seculo, afinal, Occulta no esplendor não sei que vis miasmas Que fazem muito mal!
E quando vós passaes, nas horas do mysterio D'estrellas revestidas, Bebemos nós, talvez, o aroma deleterio Das rosas corrompidas!
Oh sim! parti depressa; erguei-vos d'este abysmo Archanjos ideaes, Deixando-nos colher a flôr do realismo Nas coisas triviaes!